Ao que chamo poemas, poderás chamar outra coisa. Nada mais tenho.
Caro Fantasista
Caro fantasistaDá-nos um baileQue nos deixe a vistaEnvolta em negro xaile Que torne fácil a vidaE doce a dor de a viverFaz do tempo da despedidaO melhor que pode acontecer Caro fantasistaCanta-nos uma cançãoQue nos coloque na pistaDe viver desprovidos de razão Canção que seja só respostasSem tempo para se perguntarQue a pesada dor nas costasSeja o teu penoso trovar […] More
Brrrr
Fica só e frio o ser que clamaMudo o toque que lhe adorneA vida vazia e sem chama Frio de frieza fria e disformePor viver exilado entre a genteSem abraço que o enforme Dizer de si próprio contenteQuando lhe chove no serE ter por ruidosa a mente E dos próximos se perderPor se sentir debaixo da móSentindo a vontade desfazer […] More
Finalmente livre
Estou cego de tanto ver, Confinado por tanta liberdadeNuma pradaria imensa que me obriga a olhar para baixoSempre para baixo, Ofuscado pela ausência da solitudeAnseio por estar só, E verAnseio que me deixem, E escutarSem os grilhões das imagens em cascata, Igual e constanteSem o seu troar indistinto, Sufocante algoz da escolhaTudo o que me sobra do universo me pede […] More
Sempre o mar
É sempre o mar que me trazEm cada onda que morreA vontade de viver renovadoOnde se agiganta o passadoSinfonia do tempo que escorrePor cada onda abandonado Paredes rolantes avançamDesfazendo-se em brancuraCobrem a vida e outro tantoSumidas nesse rouco prantoCom a sua agreste canduraQuais filhas do terror e espanto Ficam só os nomes das pedrasOnde todo o resto já mudouE nada […] More
Não nos perdoamos
(Ode ao capitalismo – que nunca tanto brilhou) Não nos perdoamosQuando perante o abismoDeres um passo em frenteQuando sentirmos o sismoQue levanta o mar quente Não nos perdoamosQuando o mar subir vazioE o sol nos cortar a dermeQuando o ar for só bafioE respira-lo nos enferme Não nos perdoamosQuando a luz nos queimarE o fogo abrir em feridaQuando azedo for […] More
Olhar o Sol
Se…Alguma vez olhaste o sol de frenteDe modo tão cego e tão contenteQue dos leitosos olhos envidraçadosTeus sonhos jorrassem branqueados E…Tuas dores não fossem mais que nadaNum mar sem ondas que se enfadaApenas porque o imenso sol aguentasSó na firmeza de como o enfrentas E…Por isso te veem como um estranhoAlguém dos idos tempos de antanhoOu então o que se […] More
As coisas da vida
(Põe tu as putas das vírgulas) Por baixo um chão incertoVerde e molhadoDe brancos mal cobertoEm constante movimentoTerminando em rebentoAo horizonte confinado Por cima um manto protetorDe um azul onduladoA algodão mal enchidoAnimado pelo ventoQue sopra frio e dá alentoAo corpo no casaco cerrado No meioPousadas numSuspensas doutroSeguem inertes as coisas da vidaDe que abdicamos apenas por instantesOu em breves […] More
A vida de coração partido
Uma flor voa sobre a nossa sombraInundando de aroma a fim o rio que somosMudando-lhe os contornosAcendendo nela a sua morteEsbatendo-a a ponto de ser pouco mais que memória Deixas-me, deixo-te, deixa-mo-nos sem nos soltarmosPresos ao coração que sempre somosCativos das dores da partilha, reféns do prazer de viver a doisPresos à liberdade de nos amarmosNada mais que dois corações […] More
Exercício 1
Encontrei-te onde não estavasNum amor que é só memóriaNas flores a azul estampadasDe um vestido feito história Sentado ao lado de mimPelos meus olhos olhandoAbandonado no jardimA tua chegada buscando Encontrei-te onde não estavasNo que ficou da tua ausênciaE eu num desejo sem palavrasEspero por ti sem paciência More
Às voltas, sempre às voltas
Perante o prenúncio do fim da origemVejo o passar do tempo em vertigemCravando rugas e sarando feridas Como uma película sem início nem fimComo o infinito contido apenas em mimAbrindo questões há muito esquecidas Sinto que propósito algum me assisteOnde existo sem desígnio que registee Que esta é a verdade nua e crua Que não sou mais que luz sem […] More
Na distância
É na distância que te amo maisÉ ao longe que o meu coração por ti sangra Estar longe de ti é sentir o vazio da falta que me fazes; da felicidade que é a tua presença É ao ver-te refletida no mundo que sei o quanto necessito de tiÉ por saber que me amas que tomo conforto na dor de […] More
um outro Tempo
Passa a hora no tempo que acabouNo momento do nada que desprendeO remanso dos sonhos já esquecidosLembrados pelo que nunca foram Lampejos negros da memória virgemDe só recordar o que não aconteceuE invejar o que tem preso pelo limboDa plenitude de uma existência vã Na negrura que encandeia a almaNa brevidade de uma luz dissonanteUm fotão de esperança no terrorQue […] More
Disse não à chuva e ao vento
Disse não à chuva e ao ventoQue me levam os passos para longeDo mundo que me rodeia e envolveEm lânguidos e cortantes murmúriosComo o afagar de uma navalhaOu doce estridente da terra queNua se faz mãe da solidão Disse não à chuva e ao ventoE fiquei para sempre com a memóriaAlagada por um mar de pedra emSulcos concêntricos ao desesperoContido […] More
Vazio
Ao deitar-se e abrir os olhosPara um mundo indiferenteAdianta-se o sonho nos folhosDo gelado lençol da mente Local de cegueira brancaOnde todo o mar é solidãoUma ave sem voz estanca A liberdade da sua inaçãoE ao ser mais forte arrancaTodo o sangue ao coração Seco bate e sem sentidoO coração inútil por estar vazioVivendo da memória que vem Do sangue […] More
Podendo algum dia
Podendo algum dia estarNum único local a vida todaDe pés plantados e contemplarUm momento onde eterno fosse E seria em frente ao marCom o sol na cara e onde barcosCravados na lonjura dos olhosSe derreteriam em horizonte E seria em frente ao mar Onde gruas feitas de ferrugemGuardariam o meu velar soleneCom areia dura por pedestal E seria em frente ao […] More
Every day is like Monday
Deixa a tua reaçãono final do texto. Nada passará además que dolor. Todos os dias são segundaRepletos de vazio e relentoSolidão grave e profundaTonitruante e escuro vento Todos os dias são segundaAzuis, cinzentos, iguaisSecam estrada fecundaFecham todos os sinais Rodopiando numa rotundaSucedem-se na contramãoOs dias que são segundaCirculando sem paixão Monótono o seu caminhoCinzento vai no seu viverPois se encontra […] More
Entre nós e as palavras *
Entre nós e as palavrasRessoa a luz das ideiasNa forma das coisas purasDe suas vozes arredadasPor negro e claro cheiasContrastante nas figurasDe silêncios caiadas Entre nós e as palavrasNão há voz que articuleOu grafismo que vinculeOs nomes que nos demosVidas que nos pintamosFormas jamais deslavradasPor si mesmo representadas Entre nós e as palavrasNo recôndito da linguagemRevela-se longo o sentidoFeito de […] More
Livro?
Que seguras tu na mãoFino e de um plástico pretoBarato de aspeto e caro de preço Que tanto lhe dás com o dedoPolegar no pequeno ecrã baçoMonocromático Que mundos se te revelamNessa pequena janela sem maisQue um incessante faiscar de letras Que objeto tão insignificanteTe faz sorrir e parar para pensarAbrires a boca e dizeres ‘Ah’Fixares os olhos e deles […] More
Sobre Ítaca*
Saído de Ítaca, não és nada nem ninguémNada conheces senão o amor da tua mãe Saído de Ítaca, tu és pela mão de alguémPerdido na cidade, sem saber o que esta tem Começas então a calcorrear, gatinhar e logoA voar. Onde a cada dia se revela em ti o fogo De quem abre como novos os olhos a cada diaE […] More
Duas linhas
Um caminho Um dia, assim do nada, à frente dos teus pés, uma linha se parte para saberes quem és E tu, assim do nada, tão seguro de quem és, percebes que a teus pés está quem sempre foste e que nunca poderás perder ou o novo ser que te espera que quase não esteve para acontecer Houvesse linha à […] More
o Prado
Na tarde luminosa e friaSob o céu azul límpidoVieste de alma despidaAquecer este ser sombrio Teus pés sobre o pradoEram de verde invisíveisPerfeitos como os beijosQue entrançados colhemos Num sonho que é só nadaDesejo de luz que soterraO corpo da vívida negaçãoQue é estar vivo e não viver Os beijos despidos de amorDestruiriam-se no pradoE talharam o seu futuro Que […] More
Memória / Persistência
Passadas lá atrásAs passadas que guiaste guiadoPelas passadas passagensQue te trouxeram aqui Só Mas sempre acompanhadoPelos passos dos que em tiPassarame PassandoDeixaram as marcas dos passosQue passarás a quem para ti olhar Quando já fores passado More
Interbellum
Paira uma sombra no mundoUma sombra cheia de passadoEcoando o nada negro fecundoNo esquecido presente alienado São os sinais que se repetemDe caminhos outrora pisadosBanalidades que intrometemA vida arco-íris dos alheados Caminha a sua própria solidãoO homem agora empobrecidoE a mulher confiada à devoçãoDo que para si terá já perdido Dana-se o jovem sem futuroDana-se o de futuro roubadoNo altar […] More
Finalidade
Passa a torrente apaixonada do ímpeto E nada mais fica no ecrã de luz branca Que o poema ditado pelo passageiro Incomodado por ser irremediavelmente Um triste narcisista sem reflexo que se olhe Lhe segure a mão e lhe dê o alento Necessário para não ter de se perguntar: Para que servem essas palavras? Quem as tomará para si? O […] More
PSFB
Nada sinto em mim até ao momento em que o escrevo. Não existo até à hora em que a minha vida é transposta em palavras, visível apenas num reflexo de contornos difusos, entrevista nos espaços deixados pelas palavras na negra mancha de texto. Como se tudo o que sou: Fosse o sol conhecido pelo calor que deixou na areia da […] More
Ser ou não ser
Ser ou não serEis a questãoDo amanhecerAo limite da solidão Do sono que esqueceÀ saga nua que viveuSe fasciculada saísseDas páginas intoxicadas da Orpheu Se é porque respiraOu se detém de razãoSe termina em grossa piraOu se transcende o coração Se começará a vidaNo primeiro dia do serOu estará adormecidaAté ao dia de morrer A questão não é maisQue a […] More
Confinado ao universo
Tão presa à vidaA alma é solidãoPor se ver contidaNa negra vastidão Tivesse eu algemasFosse esta a prisãoCercado por barrasA que deitar a mão Fosse o meu olharPor barreira obstadoE sonharia escaparA viver vedado Levantasse o véuComo por esmolaVeria também euO céu que consola Eis-me tão confinadoCercado de horizonteDe infinito aprisionado Onde me sinto a monteQual bandido renegadoPerseguido mas insonte More
Hamlet
Paira sobre ti uma complexa simplicidadeComo se o que sabes não olhasse ao que és Habitas o tempo das cavernas celestiaisEnraizadas nas memórias de primatas oblíquosCego pelo deslumbre da pertença a um clube que criasteE ao qual nunca foste admitido Exalas das páginas de uma história míticaIndistinta e monocórdicaUma magnificência académicaDespojada de vida própria Partilhas uma realidadeQue constróis e na […] More
Sobre a distância
Só de Longe vejo o beloBenefício da distânciaPois chega tão só o zeloDelicado da fragrância Distanciado do mundoPurificada a visãoAbala-me o mais profundoDas coisas que há e não são Também de ti ó meu amorEm memória recortadaAcende em mim o calorDa beleza inalterada Mas tão contrário a este mundoQue perto me faz doerUnido a ti sou fecundoMinha musa por mulher More
Memória
Do que é nada, tudoSurgido como o mitoO pleno da existênciaDoloroso e gratificante Como uma memóriaApontada à cabeçaDirigindo mão e olharAfunilando a escolha Que cega a acçãoDo olhar alto e servilQue trava a escutaNo fim dos arcos-íris Passa o tempo quietoPor círculos a direitoFilmados a luz e dorBafientos, frios e baços Como se o corpoNão fosse teuMas emprestadoPor ti a […] More
Verde e Azul
Hoje estás verde. Verde como uma Esmeralda que se beija aos dezasseis. Por cima de ti, está azul. Azul rijo, como as Cerejas que se comem aos trinta. A meio, uma linha. Uma linha que separa Esmeraldas de Cerejas. Uma linha que só alcançarás quando for tarde demais. Uma linha que não existe por estar à frente dos olhos de […] More
Sobre o dia que nasce
É dia, mas não ainda para mimLá fora correm luz, sons e pessoasActantes do que faz um dia, dia O sol desperto, espelha-se no mar, em distanciamento lentoAs flores dançam, animadas pela musicalidade da brisaOs pássaros há horas que deixaram de cantar Uma nesga de dia penetra, feliz, o quartoEste mundo, suspenso, é puxado para o de lá de foraLentamente, […] More
Fosse eu…
Fosse eu outro e não te amariaNeste amor a carmim e quenteFosse eu o céu azul e não seriaCoração que lampeja ao ver-te Saltasse eu pelo mundo absortoDe quem vê a verdade num pauE não serias a canção no PortoDe um rio que por ti passo a vau Fosse eu uma árvore pequeninaE cresceríamos unidos pela vidaGravarias o teu nome […] More
Sobre a dádiva
Parte de mim o que será outroInsuflando um ser que não euDo que sou para lá de mim Vida entregue à máquinaParcial e friamente devolvidaPlanta-me num desconhecido Enche e vaza a pequena tinaDe vida diluída em sangue vivoMultiplicando a unidade do ser Lá fora o mundo num vaivém sem trocaFixo eu…Parte de mim o que será outro More
Vento Norte
Sinto em mim o vento do norte empurrando para longe a cordilheira de água que escurece o horizonte do olhar ; Como uma montanha mágica ; Donde Os arco-íris fogem ; A frescura do dia é igual ao afago da noite ; e A nortada que passa em mim não mexe os fantasmas bordeantes do azul do céu abobadado ; […] More
Sobre o Dente-de-leão
Na minha negra secretáriaUm dente-de-leão espera partirCalmamente num copo de shotSem brisa que o faça fugir Leve e diáfanoSofre só de pensarO vento lá foraA soprar Dente-De-LeãoÉ frágil o teu coração Dente-de-leão tão quedoE mudo nessa doçuraDe dente mansoQue morde com candura Sonha partir(se) voandoSem rumo nem passaportePor entre pássaros e caosSonhando um muro por sorte Dente-De-LeãoÉ forte a tua […] More
Contigo em todo o lado
Estás comigo em todo o ladoAinda que seja pela noiteNegra fria e de céu veladoSem regaço que me acoite Estás comigo em toda a partePor muito sozinho que estejaConfinado entre a Terra e MarteNum carreiro gélido que flameja Estás comigo no quenteDo tempo vivido amandoO amor de estar presente No silêncio do teu comandoDe que só o amor consenteEstás comigo […] More
Porque sonhava
Afundava a cabeça na almofadaFundia o corpo nos lençóisPerdia-se na luz que era a escuridãoDa noite que chegada há horasSó agora lhe tocava o serE o pintava de sono De olhos voltados para o seu universoEm distendidos reflexos da vozAbandona as margens seguras de siOnde é senhora do seu destinoPara navegar histórias de quem não ousa serEntre sopros compassados de […] More
Sobre esta felicidade
Voa solto o sopro da escuridãoSobre um qualquer macaco de imitaçãoDe cinza bicho indiferente e amorfoPerdido no fim de si mesmoDespido da forma que temSaudoso de tempos coloridos e arejados Num mundo reduzido tudo apertaRedutor e retraído é o espartilhoDe vento enjaulado e sol esbatidoDe véus agnósticos fluídosMedos de compendios extraídosRiscando liberdade no ressoado dos vidros Iça tarde o corpo […] More
X
Percorre no profundo de tiQual lagoa no fundo do marSereno segredo que senti As quentes candeias do teu olharPor mares castanhos me perdiDesfolhando o livro de te amar Nos dias lentos de pandemiaEm fresco abrir da boca por dentroBrilha forte onde antes se escondia E lavra do esmorecido o centroFulcro da paixão de cada diaGerme futuro de paixão adentro More
Que o sol da tua boca
Que o sol da tua bocaSeja o meu dia mais frioPor temor a um calor vazioInflado de nuvem barroca Que o céu do teu corpoSeja o mais perto de mimAmado amante sem fimDespido, o desejo encorpo Que a cor do teu sopro doceSeja a vida nas minhas veiasDe castelos móveis sem ameiasSonhando que medo me roce Que sejas para sempre […] More
Capitão do meu coração
Quisesse eu ser num dia só o teu abraçoApertado no corpo de nós os doisDeitados no ventre que se encheu depoisCaminhando firmes rumo ao cansaço Quisesse eu ser o Capitão da minha almaNo vasto horizonte do olhar namoradoQue deixa cativo o mais forte e testadoImpotente perante a voz que me acalma Não quereria nem mais posso quererDiante de ti ó […] More
Sobre o medo
Perdido, escuro, só, deitado com a mão fora da camaConfuso, sonoro, alto, pendente da vertente de uma montanhaFugindo do eco dos próprios passos na rua nua e vaziaOlhar o cão que nos espera na curva do caminhoDizer-te mil vezes amo-te sem nunca abrir a boca Esperar por toda a vida que nunca chega por troca da que tem voragem de […] More
Sobre a eternidade
— E agora que és eterno, que pensas fazer? Conhecer e compreender e saberAo ver firmemente o que é amarSorvendo a viagem como destinoDe Kerouac em redondo renascerEm apor a voz nas ondas do marLançadas à inocência de menino Ler nos olhos a vida que passaNo olhar das gerações fundidasQue é ser Homem e Mulher e SerMais do que um […] More
Sobre a solidão
SóTão só como o fogo que ardeConsumido sem partilharO que lhe é dado para amar SóTão só como o sol que escondeSeu congénere mais distanteEm véu quente e ofuscante SóTão só como o velho de frondeLarga como o desespero frioDa foz que acolhe o seu rio SóTão só como o mundo covardeQuerendo a tudo que faz nascerNada mais que penar […] More
Sobre a impermeabilidade
Deixo a cidade para trásEmbrenho-me pelo ferro que se estendeÀ minha frente em síncopes visuaisDesaparecendo a silêncios ritmados Mil cavalos me puxam pelo denso do nevoeiroOnde bois ocultos aguardam que o medo lhesPasse pelas ventas molhadas para bufarFincados nos cascos e nada mais Chora por fora o vidro que separa este mundo do outroOuve as conversas deste de cá de […] More
Sobre o céu e a terra
Deixo que nuvens, apartando-se, revelem a abóbada negra do firmamento côncavo, frio, suturado e impreciso da mente Estilhaçada em milhares de milhões de turbilhões de estrelas, cometas, planetas, mundos inteiros, rodopiando invisíveis, pontinhos de luz, branca e trémula Num firmamento semeado de pensamentos livremente presos, uns aos outros, por nada mais do que rodopios imemoriais de atração gravítica E logo […] More
Memória
Passadas lá atrásAs passadas que guiaste guiadoPelas passadas passagensQue te trouxeram aquiSó Mas sempre acompanhadoPelos passos dos que em tiPassarame PassandoDeixaram as marcas dos passosQue passarás a quem para ti olhar Quando já fores passado More
Sobre tu
Se há cores que cobrem as coisasTodas que existem nos meus olhosE se movem animadas pelas folhasDe universos permeados de escolhos Se há beleza no mundo feito de dorLancinada a cada dia morto o sonoVivido ao ritmo das mãos do escritorCavando regos digitais de abandono Se ainda há afetos e abraços veladosQue tomados refém do insignificanteNão ficam esquecidos nem domados… […] More
Sonora como o mar
No intervalo do tempoEnsaiado na vontade de furarAs horas que passam perdidasHá… O tempo do mar De estar junto a ele e com eleSaturar-me do som que irrompePor entre as ondas e a areiaPor entre as gaivotas que passam Voando Imunes ao olhar suplicanteDos olhos presos ao tempoQue voa sem pairar pela dorDa vida colada ao chão Dor dos dias […] More
No trono II
Vão-se as horas e fica o tempo vazioApós todos os incrementos quantitativos do cansaçoO dia desmobiliza e se perde em passos finosDa luz que se esvai em sucessivas pinceladas deAmarelo alto, laranja heróico e vermelho frioAos poucos sumindo-se do olhar saudoso Quando sei que o dia acabou e a noite entrou em mim? Quando é que olho o dia e […] More
Num trono
Um tapete de prata estende-se à minha frente num deserto azul; líquido e carregado; diáfano e gasoso. Nada mais existe, nem a areia sob os pés, nem a silhueta recortada no azul eterno. Voa redonda, em bicos de asa, fechada no silêncio do vazio que a sustém. Dá-se por gaivota, mas é alma negra; demarcada do universo. Voga num sem […] More
Perdido
Podem animais facilmente perder-seEsquecem por desleixo o seu caminhoDepois farejam o chão como se fosseGrande fundo medo de ficar sozinho Só animais altos e baixos querem terMais dos altos e baixos por companhiaNum mundo excessivo onde se perderGrande pano veloz do dia-a-dia Tal como bicho que fareja seu igualRumo sonho e memória em mim castoÀs paredes negras que nunca dão […] More
Algo extraordinário me prende ao que sou hoje
Algo extraordinário me prende ao que sou hoje A força de um abraço que me solta da clausuraNuma liberdade de nada querer e nada desejar . . . Nascida do sol de uma noite de anos perdidosProcurando encontrar apenas na perda do SolO prazer em não ser mais do que um povoador Das almas dispostas a serem conquistadas porTropelos de […] More
Encontraram-se
Encontraram-se a meio de uma noite que findava no começo de um novo dia Trocaram olhares de dádivas sôfregas em noites claras que não passaram de efémeras carícias infinitas Amaram-se para sempre na proximidade de uma memória distante, perdida numa juventude que se encontra em cada foto recordada de uma gaveta esquecida Perderam-se naquele encontro de olharEla firme, com a […] More
Em dias de luar
Há dias de luarEm que a fresca luzTe deixa resplandecerDum desejo forte de amarQue vestes como alvo capuzDo corpo nascido para amanhecer Ânsias de luarEm dias tórridosDe invernos imóveisPrimaveras com falta de arEm frios dias entre dedos sumidosDebaixo de vidas forrando paredes frágeis Liberdade no luarÉ o que quero para nósRespirar como beijo fundoPois como quem vive por amarOuve o […] More
Haiku
Assim te olhoNua por entre lençóisDe ondas brancas A Terra um diaVai olhar para nós eManda um vírus Mãe, vaso e nauQue nunca parte em mimFica o amor O corpo fixoDo tenso peito partiuPara lá de si Branca de neveCasta pela invejaDo belo fugaz Pelo teu olharFlui o rio do amorLongo e terno More
Faz-te feliz
I colhe as palavras do firmamento da língua para as derramar musicalmente por brancuras de neve perfumada; embala sonhos de musgo pelas dunas do amor, descendo desespero subindo esperança; deixa no horizonte silencioso promessas de solos férteis em memórias de arranha-céus candentes e vagos; arranha a consciência do cão que apenas se tem a si para se lamber; senta no […] More
o Herói
Todos os heróis são involuntáriosSai-lhes da mão a históriaPorque ao destino são contrários Alvo de honra e memóriaPor alto erguerem a sua espadaOs cobrem de fama e glória São como vela ao vento enfunadaAríete ao destino lançadoFindo o vento mais são que nada É o vento o fado douradoQue resgata o mortal do anonimatoE seu destino é assim lavrado Retoma […] More
Dançando
Há anos que dançamos juntosSem mais que dádiva por féAbraçados, separadosDançamos em péDançamos deitados Há anos que dançamos juntosAo ritmo do nosso amorDançamos na alegriaE dançamos na dorDançamos na euforiaDe viver dançando a florQue é uma vida que dançaDo nascimento ao estertor More
Pudesse eu
É domingo e, lá fora, o céu é de azul grisalhoÁrvores pastoreiam pássaros nos seus galhosVelhos, indiferentes ao seu sacrifício, circulamEu leio Pessoa e escuto, na rádio fria, ZambujoE estes versos surgem por mão um intruso sujoFarto das paredes enquanto velhos circulam É primavera e não sinto a frescura dos sons Nem as folhas verdes nem a textura dos tonsTodos os […] More
Amor em tempos fechados
Amar-te é hoje lembrar todos os beijos trocadosAmar-te é hoje acariciar a tua face com o olharÉ Revisitar um livro de cores, odores e saboresNo sempre cálido rio onde nos vamos banhar [e]Secar-mo-nos a panos de esperança bordados More
A cidade
A minha cidade está vazia Como uma casa de pedra Que de tão vivida ficou fria Uma ínfima sombra medra Um peneireiro voa na VCI Uma vinha súplica a redra O ar cheira a ficar por aqui Á’braçarmos com a alma Abraço e o beijo que perdi No encontro de quem ama Na leveza pura da distância Na felicidade duma […] More
Volto costas à ominosa fazenda que se veda nos dias infectos em pantalhas enfermas
Volto costas à ominosa fazenda que se veda nos dias infectos em pantalhas enfermasA janela é natureza viva de plantas indiferentes; keine bewegungRespiram; esticam novas folhas de ramos velhos; exalam flores em imóveis correrias pela vida Ho violentato una donna; e a sua fúria é a de sempre; kill’em all Só as pessoas; só os humanos atados às ações que […] More
Segurando ao colo as cinzas do que foi o colo do pai
Segurando ao colo as cinzas do que foi o colo do paiOlho as roseiras aos pés; pequenos caules de verde espinhoso e rosa promissor e grandeTento não pisar as roseirasTento não pisar as memóriasNa ponte o comboio leva para lá do rio a memória de ser filho; A roseira aos pés desponta para as memórias de ser paiFilho da memória […] More
Mais vale escrever do que viver
“Mais vale escrever do que viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, enquanto o sol dura e há bananas para vender.” (Fernando Pessoa) O escritor, o poeta, é o que numa frase, cose toda uma vida. Ah, Fernando, que saudades tenho de beber uma ginja contigo; cotovelos opostos (porque és destro e eu canhoto) no […] More
Hoje acordei com vontade de me levantar
Ao sentir-me desperto,Acelerado pela luz que em mim entrava vinda da janela cuja persiana ficou em enrolado esquecimento,Cresceu em mim uma vontade tumescente que me impelia para longe daquela doçura que é o conforto absoluto de uma cama dormidinha,Onde a noite termina com um resignado regresso à vida. Agarrei-me a ela e para ela me voltei,Mas ela já lá não […] More
Dez mil candeeiros
Há dez mil candeeiros na tua ruaE dez mil portas iguaizinhas à tuaDez mil vasos em soleiras poisadosOferecidos por dez mil namorados Uma rua onde tudo é tão parecidoQue parece um só canteiro floridoE em cada casa uma rosa vermelhaQue por amor revela sua centelha Dez mil corações clamam seu amorDez mil peitos projectam seu ruborApenas um coração por mim […] More
O homem pequenino
O homem pequenino olha com cara de mau. Tem aquele olhar desconfiado de quem julga que estão sempre a falar dele. Olha para os outros como se lhes fosse às trombas. O homem pequenino só sabe falar de carros ou de gajas. Quando não são gajas, são carros. Pode ser um doutor, um engenheiro. Pode ter estudado muito, mas não […] More
O início de Tudo
No tempo em que nada haviaNem mesmo tempo que se contasseVogava Deus como bem queriaSem pouco que a incomodasse Olhava com olhos que não tinhaPara o que inda não criaraE grande tristez’à mente vinhaPor tudo quanto não se passara E vendo já negro o fimDo que não começaraArriscou mesmo assimFrase que se exara: FAÇA-SE LUZ!E tudo criouPartiu o negro capuzE […] More
Quem sou eu?
Foi então que parti à procuraDe segurança e sabedoriaTremendo ao sentir a’marguraQue a nova ignorância trazia Mas que mente esta que torturaQue martela a todos os momentosQue pinta de amena loucuraOs mais inocentes sentimentos Mas quem sou eu afinalQue jovem já não souSe o corpo dói e passa malDo tempo que por ele passou Quem sou eu afinalSe a alma […] More
Desculpa, mas…
Podia jurar que te vi chorarPodia jurar que foi por te amar Não me vi chorar nem poderiaPorque a minh’alma ficou fria Se por amar te faço chorarSe por amar a alma me gelarVou amar-te mais, tudo que puderTudo o que o teu corpo quiserTudo que a tua alma abraçarPara não mais te ver chorar um edifício mental, construído para […] More
77
Há uma fúria silenciosa que me quer dominar;Há uma vibrante melancolia que me fascina;Há um desejo permanente de abandonarA linha das convenções. É o abismo da ponte que me chama;É o combóio veloz que me suga a alma;É a recta e é a curva que me desafiam.E se eu saltar; e se eu me atirar; e se eu trambolhar? Que […] More
Hoje apeteceu-me
Hoje apeteceu-me colar-me à cadeiraAuto-estrada, 60 70, terceiraPassa um, 90 100, quartaPassa-os a todos, 120 130, quinta Acelerar, tirar o cinto e Ligar o cruzeiroAbrir os braços e do carro, voar para foraDescolar suavemente como um veleiroVer a estrada toda e ir-me embora Aumentar, crescerVer a cidade, passar os dedos pelas ruasMergulhar no mar de espuma a ferverOlhar a um […] More
Deuses das coisas pequenas
Na ânsia de compreender e sossegar, criamos deuses como resposta às grandes dúvidas, aos grandes tormentos, à enorme pena que é a existência. Tão bem os criamos para tão grandes tarefas e tão bem os aceitamos que somos agora sua grande criação, complacentes perante o seu juízo e critério, justificados na sua existência. Os deuses fizeram o mundo todo e […] More
Acordar
Acordei e não era amanhã. Abri os olhos e não havia mais nada.Custa levantar se a viagem é truncada.Para quê comer se logo vamos morrer?Para quê ler se logo o vamos esquecer?Deixar legado,Seguir o pregado.Tudo vão, tudo triste,Quando mais nada existe. Abro os olhos e tudo vejo,Matéria, memórias, desejo.É o amanhã reencontrado,Ao ontem abraçado.Perdi o hoje, mas tudo bem.Pois a […] More
Bater
Que bom ser mau,Sacripanta, vilão.Andar na rua de pau,Sevandija, ladrão. Ver um gato e lhe meterUm pontapé e vê-lo voar.Deixa-lo a sofrer,Com a boca a sangrar. Pôr o trabalho de lado,E o sentido esquecer.Deixar o amigo especado,Manda-lo… Viver irresponsável e intensamente existir, sóAo mundo fechar a mente e o coraçãoPara ser um monstro e não sentir dó. Ter pavor de […] More
O sonho
Vi-te morta.Estava a dormir.Foi em sonho,Mas não importa. Apertou-se-me o peito ao sentir a tua pele fria;O teu suave respirar que já não existia.Estava a dormir e não sabia se eras tu ou o teu amor que morria. Vejo-te prostrada, esventrada.E a faca ensanguentada,Diz-me que estás morta. Sei que a meu lado respiras.Que posso ver o teu rosto,Entre os cabelos […] More
Canção (de Fernando Pessoa)
Silfos ou gnomos tocam?… Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais. Ondulam como em voltas De estradas não sei onde Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde. Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei… Mal oiço e quase choro. Por que choro não sei. Tão tênue melodia Que mal sei se […] More
beija-me
beija-me uma vezbeija-me setebeija-me setenta vezesvezes sete que te beijo uma vezte beijo setebeijo-te setenta vezesvezes sete amor que nunca esqueceo beijo mais fecundoque só ao amor obedecesete vezes, vezes o mundo um edifício mental, construído para reforçar a confusão e manter viva a chama More
Ceifeira de Guerra
Por olhar para a Ceifeira de Guerra de Leonardo da Vinci. A guerra é espantoA fome, purificadoraA ditadura, harmoniosaE deus, esse, está morto Morto ele, morto por eleTão morto que viveDe tão vivo que morreMorro sem morte O cordeiro mostra os dentesO íbis exibe as garrasDeus revela a negra fauceO tirano adormece crianças Perante todos sangrará oPorco, deitado no pratoPreto […] More
