Antílope
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Porque sonhava

Afundava a cabeça na almofada
Fundia o corpo nos lençóis
Perdia-se na luz que era a escuridão
Da noite que chegada há horas
Só agora lhe tocava o ser
E o pintava de sono

De olhos voltados para o seu universo
Em distendidos reflexos da voz
Abandona as margens seguras de si
Onde é senhora do seu destino
Para navegar histórias de quem não ousa ser
Entre sopros compassados de sangue dócil

Dorme Profundamente
O seu corpo esquecido na cama
Como avião da mente liberta
Para ser o que não ousa
Livre para se deixar guiar por o si
(Que agora dorme esquecida) Do controlo do dia

Desloca-se em supetões de azul pesado
Entrecortados por ondas de saudade
Por entre as vidas que podia ter vivido
Vai beliscando o tempo entre o agora e o nunca
Fundindo-o num caldo caleidoscópico
De passado e presente não havido

E sonha
Que é varina parlamentar
E sonha
Que tem uma única ruga que oculta
E sonha
Que abraça o mundo todo com o olhar

E sonhando muda o mundo que sonhava
E muda o mundo que deixou fora da cama
Acordando ainda sonhando os fios do sonho esquecido

deserto mítico

Sobre esta felicidade

árvores mortas

Sobre a história invisível