Duas canecas. Foto de Tom Crew
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Hoje acordei com vontade de me levantar

Ao sentir-me desperto,
Acelerado pela luz que em mim entrava vinda da janela cuja persiana ficou em enrolado esquecimento,
Cresceu em mim uma vontade tumescente que me impelia para longe daquela doçura que é o conforto absoluto de uma cama dormidinha,
Onde a noite termina com um resignado regresso à vida.

Agarrei-me a ela e para ela me voltei,
Mas ela já lá não estava,
Desaparecida,
Deixou fria,
A sua alma levantada.

Frios estavam também os lençóis do lado dela,
E frio estava o saldo da sua cabeça na almofada,
Voltei-me de barriga para o ar e olhei a janela,
Desanimado com a perspectiva de a perder para sempre: o seu sorriso; os seus beijos; os seus abraços; a nossa vida partilhada.

Restava-me a vontade,
De me levantar.

Queria saber as horas,
Saber qual a extensão numérica do desvio ao ritmo habitual,
Hábitos analíticos enraizados na mais poética e madraça das almas.

Mas não conseguia abrir os olhos.

Pesavam-me as pálpebras cansadas,
Sentia as pestanas de cima coladas,
Às de baixo entrelaçadas.

Temia ficar cego na cama se abrisse os olhos,
Que se me arrancassem as pestanas umas às outras
E começassem a voar pelo quarto.

Tacteei a mesa de cabeceira,
Em busca pouco certeira,
Do rádio para o ligar.

Talvez apanhasse o sinal horário,
Pequena fortuna que por certo me saberia
A lotaria,
A joker ou totoloto,
Ou então,
Caso tamanha graça não me fosse concedida,
Apanharia com sagacidade a mais leve indicação,
Nas palavras do locutor da estacão.

A rubrica que no momento passa,
Como se agiganta ou mirra o trânsito matinal,
O aviso para não chegar tarde ao trabalho que nos devassa.

Lembrei-me depois que era sábado
E quase não se trabalha na cidade,
Pelo que a rádio não tem qualquer utilidade.

Podia olhar para o relógio do rádio,
Deveria fazê-lo,
Tinha uma imensa vontade de me levantar,
Não o faria de olhos fechados.

Porém,
Abrir os olhos para obter conhecimento parecia-me,
Naquele como noutros momentos de contemplação,
Algo tortuoso,
Impróprio à razão.

Os sentidos iludem,
Os sentidos enganam,
E os olhos na sua pureza,
Mais que todos os outros sentidos
Frustram a certeza
De viver iludido,
De viver enganado.

Queria manter-me puro e racional,
Livre de empirismos informais e palpáveis.

Queria manter-me formal e abstracto e assim fiquei,
Formal e abstrato.

Reservei então a vontade de me levantar sem de todo a suprimir,
Pois queria encontrar a razão do óbvio e o porquê do impossível:
Queria saber as horas sem os olhos abrir
E queria saber porque não estavas ao meu lado.

O rádio calou-se por fim,
Triste por não me tirar da cama.

O mundo segue na rua nas casas nos centros de decisão mundiais,
Onde quer ou o que quer que eles sejam,
Do mais velados aos mais piramidais.

E eu na cama dormindo acordado.

Dormindo eu,
Acordados eles,
Decidindo sobre o mundo e sobre as coisas do mundo.

Quanto mais eu dormia,
Mais acordado me sentia.

Mais decidia sobre as coisas dos que decidem coisas sobre mim e sobre ti e sobre o mundo todo.

E se ficasse para sempre nesta cama com vontade de me levantar,
Não estaria a entregar-me à preguiça,
Antes seria obreiro da nobilíssima obra de emendar o mundo,
Aos seus problemas chegar bem fundo:
O preço da linguiça,
Como fazer para a dívida pagar,
A fome ao mundo saciar,
Porque não estás ao meu lado a preguiçar.

Ficaria na cama até o preço da linguiça estar estabilizado,
Ou ver simplesmente vê-la da ementa retirada,
Ficaria na cama até a dívida estar definitivamente saldada,
E Portugal ser enfim um país civilizado.

Da minha cama,
Acabaria com a fome do mundo.

Da minha cama,
Dormirias a meu lado
E o universo em paz,
seria desvendado.

Acordei com vontade de me levantar,
Mas apenas isso,
Não sinto mal por aqui ficar
Nem temo o compromisso,
Por não me levantar.

Deixo-me de novo adormecer nos lençóis que me envolvem.

Adormeço para em sonhos rasgar a roupa e oferecer o peito às balas,
Voar ao lado dos aviões e dos comboios,
Lançar-me de barrancos e falésias e voar sobre os campos e sobre o mar.

Tocar,
Com a mão esquerda,
O sol,
Com a mão direita,
O mar,
Com a esquerda,
A tua face luminosa,
Com a direita,
Os sonhos destruídos.

Estudar aprender compreender,
Falar muitas línguas e em todas comunicar,
Desejar felicidades e festejar,
Dizer ao mundo que o truque é não parar,
Não parar mesmo que todo o corpo esteja a doer.

Os dias passam e eu,
Na cama com vontade de me levantar,
Nada faço que me possa espantar
E entrego minha vida a morpheu.

E ele toma a minha alma
E adormece-a,
E ele toma o meu corpo
E adormece-o.

Sou agora refém de mim próprio,
Libertado numa prisão em que sou cativo e algoz,
Livre para me deter e acometer à vontade de me levantar.

Lá fora,
Que fica onde não sou,
Corre o tempo de agora.

Cá dentro,
Há o que vem e o que passou,
Em mistura molemente dolorosa.

São os pequenos passos ponderados,
São as grandes decisões mal calculadas,
Passa o vento dormente e tudo envolve numa bruma cinzenta de vidas pardas.

Insistente,
O mar deixa na areia conchas de dores passadas,
Memórias vazias,
De sentido esvaziadas.

Ocasionalmente,
As ondas despertam-me e cresce em mim a vontade de me levantar.

Frequentemente,
As ondas levam-me para lá do horizonte onde fico a boiar.

Sempre sempre há esta prisão de ser livre,
De tudo ser porque a nada se obriga,
De tudo ter porque de tudo se desliga.

Agarrado fico à vontade de me levantar até não haver mais vontade,
Até o corpo não suportar mais a cama,
Até o dia invadir o quarto e a vida me invadir de desânimo e vontade de me deitar.

Os olhos continuam fechados,
Buscando a verdade,
Alijando a ansiedade.
Olhando para futuros dispostos em sucessão e agrupados por tipo como pasteis em vitrine de confeitaria,
Tão bons,
Tão doces.

Fora do quarto,
Desligado do universo terei acesso a talvez um,
Dois,
Desses pasteis.

Mas prefiro-os a todos na vitrina agrupados em escalas de doçura,
Em tipos de massas e em qualidades de cremes e de coberturas.

Pois sonhos são coisas que ninguém deveria tocar,
Ou ousar concretizar,
Que fiquem para sempre fechados na vitrina,
Intangíveis e apetecíveis.

Há horas no relógio mas não as quero ver,
Há amor nas outras divisões da casa mas não o quero sentir,
Há pessoas e carros na rua mas os quero ouvir,
Há árvores e flores nos jardins mas não as quero cheirar.

Quero todas as horas do mundo e o tempo do universo,
Quero o amor divino incompreensível e absoluto,
Quero ser o pastor das pessoas e dos carros em sonora encosta de erva estaladiça,
Quero as árvores e as flores em insípidos ecrãs de alta definição.

Quero o corpo enfeitado com as chagas do mundo para,
Na cama com vontade de me levantar,
As pelar uma-a-uma como quem come uvas arrancadas ao cacho com os dentes.

villain / vilão

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