Sobre Textos

Sobre sentir-se vivo

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Na calma de um dia plácido de inverno, de onde emanam os perfumes do nada fazer, do nada querer e do pouco ou nada mexer, onde se come o tempo em colheres de prata e se alternam sorvos de chá com sopros para afastar o vapor quente que embacia os sentidos, sobra a inquietude, tal qual os morangos com chantilly em cima da mesa do lanche ou o sangue fresco na neve vista da janela, intocada apenas pela caçada.

Fez-se tarde para o corpo cujo sangue que dele se despede e dá contorno e sentido à neve. Dentes relaxados traçam a carne, sem pressa, passivos aos crocitares dos dois vultos negros que em volta, saltitam provocadores.

Do outro lado da janela, num outro mundo, há uma sensação de desconforto em presença do quadro assim pintado a vermelho definitivo. Não sabe dizer se é a morte do pequeno animal branco, o seu sangue na neve ou será a sua natureza, ainda tão ligada ao que acaba de presenciar, que lhe acelera o coração e o deixa arrefecer o chá na chávena. Surge a inquietação, a dor momentânea pelo   animal retalhado, progressivamente irreconhecível a cada puxão das dentadas. Músculos retesam na tensão do momento, mãos agarram com força os braços da cadeira e costas afastam-se do encosto. Os olhos fixam-se naquela natureza, tão estranha e surreal quando vista do outro lado da janela. A natureza como abrasão do que julga ser, confronta a beleza da existência livre, visceral e lutadora que jurara, há incontáveis gerações, reprimir.

Dá-se conta que gosta e sente-se feliz pela casualidade lhe ter sido permitido presenciar o acontecimento. O sangue dá-lhe fome e, sem disso dar conta, come todos os morangos. Os traços dos morangos devorados no que ficou do chantilly, suscitam um incómodo prazer com o qual não sabe lidar. Torce-se no cadeirão do salão de chá. Tenta em vão sentir compaixão pela vida que se extinguiu. Imagina-se o protagonista da caça, a emoção da perseguição, a frustração da primeira investida falhada e o gozo de ter a presa debater-se entre os seus dentes até ao fim.

Chega a sentir o sangue na boca, quente, quase doce. Ao ver-se refletido na vidraça da janela, pelo sol que se vai, não reconhece, mas enfim abraça, o animal que o olha de volta: abrasivo; selvagem; vivo.

Porque não és como ele
Inteiro

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