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Pudesse eu

Ramos frondosos

É domingo e, lá fora, o céu é de azul grisalho
Árvores pastoreiam pássaros nos seus galhos
Velhos, indiferentes ao seu sacrifício, circulam
Eu leio Pessoa e escuto, na rádio fria, Zambujo
E estes versos surgem por mão um intruso sujo
Farto das paredes enquanto velhos circulam

É primavera e não sinto a frescura dos sons 
Nem as folhas verdes nem a textura dos tons
Todos os dias, como o de hoje, são domingo
Cães não ladram e estafetas não buzinam
Vegetam pelos passeios, rindo dos que finam
Os reformados de sempre presos ao umbigo

Volto as costas ao mundo agora suspenso
De um diminuto rei sem coroa nem incenso
A que dobram joelhos as nações do mundo
Dividido, mal repartido, quando há para dar
Tanto a muitos pelos que não querem amar
Um amor fraternal que faria mundo fecundo

Só assim, saído desta dor, sou mais que eu
Um ser estóico que falhou o que prometeu 
Que busca segurar a lua entre dois dedos
E a levar à boca como anti-vírico salvador
E o livre de mais do que a morte, do estertor
De ter vivido sem ser tido pelos seus medos

Parede com grafiti

Amor em tempos fechados

Gaivota encarando de frente

O dia amanheceu