Sobre Textos

Sobre viver

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Será que vives? Perguntas a ti mesmo quando dás conta que pouco ou nada sobra do que és. Que vives, e não – que vivo – e aténs-te nisso primeiramente.

Que te colocaste uma questão como se a outro o fizesses. Dás-te então conta que te encontras de fora de ti. Vês-te só, em simultâneo, perante um outro que dás conta que conheces apenas tão bem como conheces um familiar ou um bom amigo. E sentes-te dissociado, de tal forma que o solilóquio que encetas se assume como um diálogo. Preocupa-te se ensandeceste. Estás perante os teus sentimentos na forma de um homem espelhado. Não um homem duplicado, como o do José, idêntico em tudo exceto na vida que a cada um pertence e nas recompensas que cada um dela colhe, mas antes tu mesmo, olhando de ti para ti próprio, realização e potência. Cá de baixo, como quem olha para a memória do homem que nunca foste; lá de cima, o desejo mitigado pela realidade. Depois disso, e já em paz com não seres mais do que uma memória no altar do que de ti sobra, tu, o penitente de si mesmo, o que se vê, se toca e se ouve, confronta a dualidade em que biunivocamente se observa:

  • Visto de baixo, és seráfico e intangível, um desígnio inconsequente de sonhos desfiados em nada. Manhãs promissoras esbatidas em tardes pardas, desaparecidas por completo em noites veladas.
  • Visto de cima, és escárnio, desolação e falhanço. A aposta perdida; o sonho desperdiçado; o investimento sem retorno. O resultado do poderias ser, subtraído do que desperdiçaste.

Dói-te teres querido ser para os outros não mais do que um reflexo de um deus. Perfeito mas plano, belo mas mudo. Gostarias de ser perfeito na suavidade fria de uma superfície lisa, tão lisa como dicotómica, onde tudo é reflexo do mundo que te envolve e nada é teu. Como gostarias de ser belo na mudez seráfica da luz completa que encandeia os sentidos com o absurdo da beleza superlativa. Serias amado por milhões, e falariam de ti nas suas conversas, e entregar-se-iam aos teus pensamentos. Pronunciariam o teu nome com assombro e reverência. Terias legado e o teu nome seria conjugado como um verbo e seria eterno porquanto houvesse cultura dos homens. Não porias os pés no chão, as nuvens seriam a tua morada e a tua respiração seria metrónomo do mundo.

Dói-te mais ainda saber que o teu desejo te retirou a ti próprio, onde, realização e potência, combustível e comburente, se apartam e agora, para teu desmando, se desconfiam e desprezam mutuamente. Tu, sim tu, desconfias que não foste capaz do desafio que te colocaste; e tu, sim também tu, desprezas a altura da fasquia que te propuseste vencer.

O desejo, o sonho e a soberba projetaram-te para alturas que sabias desde o início que não alcançarias, deixando-te:

  • Desconexo;
  • Desesperado;
  • Displicente.

A carne, o suor e a vontade traíram-te e despiram-te ao que és:

  • Inconsequente;
  • Impermanente;
  • Imponderável.

Aceitas que és resíduo do poderias ter sido, restolho do que alguma vez sonhaste ser, pasto para a desilusão que prometeste por ti; um homem dissociado, sem cola que o una, sem ideal que o motive, sem estrela que o guie, mantido apenas pela atração quântica da necessidade e da dor. Não és nada senão dor; dor por ter, dor por estar e dor por ser. Que tudo que tens não te pertence, onde quer que estejas és intruso e tudo que és ou dizes ser é, em diferentes medidas do tempo, uma falsidade ou um erro. Não existes senão no limite do efémero; não existes no canto da boca; não existes senão como pó atrás de um pesado móvel que há gerações se mantém ancorado na mesma sala. Desaparecerás no momento em que o efémero se consuma, a boca se limpe, o móvel se queime; desaparecerás deixando o universo infinitesimalmente redisposto, mas exatamente o mesmo.

Definhar

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