mãos sujas com terra

Por vezes encontro-me escritor

e nesse estado límbico, em simultâneo periférico e regulador, encontro-me agente do inconsciente no universo da razão, despido de tempo e de espaço que dá corpo ao etéreo, voz ao silêncio, rostos aos vultos e faz Aquilino pastor de saurópodes. Uma escrita criativa na medida em que não existia senão no éter da poesia que é o mundo; uma crónica da mente a olhar para si própria com o mundo por espelho.

E traz também a dor e a alegria e a cobardia e o garbo; e também o sonho, a luta, o medo, a angústia, o ódio, o amor [sempre o amor]. Ora de dedo em riste, ora em palavras carícias (caríssimas), que nada custam após serem ditas; e também pelo incómodo que causa em mim e, espero bem, em ti. Disse-me uma vez o Zé Pedro “– Não gosto nada de ler o que você escreve. [– Porquê?] Porque depois fico a pensar nisso.” Maravilhoso! A melhor crítica literária de sempre. Obrigado Zé Pedro.


Arquivo geral

Mulher com cabelo esvoaçante

Sobre a distância

Só de Longe vejo o beloBenefício da distânciaPois chega tão só o zeloDelicado da fragrância Distanciado do mundoPurificada a visãoAbala-me o mais profundoDas coisas que há e não são Também de ti ó meu amorEm memória recortadaAcende em mim o calorDa beleza inalterada Mas tão contrário a este mundoQue perto me faz doerUnido a ti […] Mais

Floppy Disk. Arquivo

Memória

Do que é nada, tudoSurgido como o mitoO pleno da existênciaDoloroso e gratificante Como uma memóriaApontada à cabeçaDirigindo mão e olharAfunilando a escolha Que cega a acçãoDo olhar alto e servilQue trava a escutaNo fim dos arcos-íris Passa o tempo quietoPor círculos a direitoFilmados a luz e dorBafientos, frios e baços Como se o corpoNão […] Mais

Praia de Leça

Verde e Azul

Hoje estás verde. Verde como uma Esmeralda que se beija aos dezasseis. Por cima de ti, está azul. Azul rijo, como as Cerejas que se comem aos trinta. A meio, uma linha. Uma linha que separa Esmeraldas de Cerejas. Uma linha que só alcançarás quando for tarde demais. Uma linha que não existe por estar […] Mais

Patinhos pastando

Sobre sonhar (53)

Hoje apercebi-me, estranhamente, mas sem surpresa que, mais do que a cores ou a preto e branco, sonho em sons. No jardim do milionário apaixonado, dormem patos e pessoas. Eles com o pescoço pousado sobre o dorso, como sabe bem aos que são patos; elas, as pessoas, aninhadas (como se estivessem à espera de nascer) […] Mais

Sombra de estores em parede

Sobre o dia que nasce

É dia, mas não ainda para mimLá fora correm luz, sons e pessoasActantes do que faz um dia, dia O sol desperto, espelha-se no mar, em distanciamento lentoAs flores dançam, animadas pela musicalidade da brisaOs pássaros há horas que deixaram de cantar Uma nesga de dia penetra, feliz, o quartoEste mundo, suspenso, é puxado para […] Mais

Aves em mangal seco

Fosse eu…

Fosse eu outro e não te amariaNeste amor a carmim e quenteFosse eu o céu azul e não seriaCoração que lampeja ao ver-te Saltasse eu pelo mundo absortoDe quem vê a verdade num pauE não serias a canção no PortoDe um rio que por ti passo a vau Fosse eu uma árvore pequeninaE cresceríamos unidos […] Mais

Doação de sangue

Sobre a dádiva

Parte de mim o que será outroInsuflando um ser que não euDo que sou para lá de mim Vida entregue à máquinaParcial e friamente devolvidaPlanta-me num desconhecido Enche e vaza a pequena tinaDe vida diluída em sangue vivoMultiplicando a unidade do ser Lá fora o mundo num vaivém sem trocaFixo eu…Parte de mim o que […] Mais

Failure To Communicate Scene

Failure to Communicate

Fonte: YouTube – Cool Hand Luke (1967) – Failure To Communicate Scene (7/8) | Movieclips Mais

Caderno e tablet

Sobre si 32

Dou comigo a pensar se sobre escrevo o que penso, se escrevo o que sou, ou, por sortilégio que desconheço, escrevo somente as palavras que, como brisas, nos envolvem a todos e eu, de camaroeiro numa mão e lanterna na outra, as vou enredando nas noites de maré vaza e lua cheia que são os […] Mais

face de mulher

Sobre o olhar

Não gostas que olhe para ti. E deixa-lo claro. Não o dizes com a boca, mas com o olhar vago, perdido pelos passeios ou pelo ecrã do telefone. Não o dizes com a boca, mas com o afago que a roupa, tua única fronteira, te dá. Avanças aparentemente indiferente, aparentemente feliz, aparentemente frágil. E eu […] Mais

melão

Sobre o sincretismo

O melhor melão é o que cresce ao lado da malagueta. Aquele que se partilha, desde as suas raízes, trocando doçura por aventura. A dádiva e o recebimento, a troca, de raízes ou de fundamentos de vida, é a única via do desenvolvimento. Venha então o beijo dos Cátaros, venha o branco de Iemanjá, para […] Mais

Cravos vermelhos

C de Camarada 25

Da orla do planalto da sua verdade, olhava a planície da incerteza que se estendia ao infinito, quilómetros abaixo dos seus pés, cravados no chão e ensanguentados de barro vermelho. Trazia numa das mãos a cabeça mirrada, muito para além do seu tamanho original, de um dragão outrora temível e, na outra, a espada, imaculada […] Mais

Gato dormindo em cima de muro

Dormindo 50

Dormindo, é estaca caída, despido do ser, qual cela vazia que, dum panoptico sem propósito, ninguém observa. Vai treinando estar morto, desaparecido do mundo, do seu e do de todos os outros. Porque, se não está nos mundos deles, então eles, enquanto dorme, não estão no seu. E assim ficam, os mundos de todos e […] Mais

Nuvens à distância sobre o mar

Vento Norte

Sinto em mim o vento do norte empurrando para longe a cordilheira de água que escurece o horizonte do olhar ; Como uma montanha mágica ; Donde Os arco-íris fogem ; A frescura do dia é igual ao afago da noite ; e A nortada que passa em mim não mexe os fantasmas bordeantes do […] Mais

Dente-de-leão

Sobre o Dente-de-leão

Na minha negra secretáriaUm dente-de-leão espera partirCalmamente num copo de shotSem brisa que o faça fugir Leve e diáfanoSofre só de pensarO vento lá foraA soprar Dente-De-LeãoÉ frágil o teu coração Dente-de-leão tão quedoE mudo nessa doçuraDe dente mansoQue morde com candura Sonha partir(se) voandoSem rumo nem passaportePor entre pássaros e caosSonhando um muro por […] Mais

Selva

Contigo em todo o lado

Estás comigo em todo o ladoAinda que seja pela noiteNegra fria e de céu veladoSem regaço que me acoite Estás comigo em toda a partePor muito sozinho que estejaConfinado entre a Terra e MarteNum carreiro gélido que flameja Estás comigo no quenteDo tempo vivido amandoO amor de estar presente No silêncio do teu comandoDe que […] Mais

árvores mortas

Sobre a história invisível

(no trono III) Era meia-noite e tinha perdido o melhor de mim.Doía-me ver-te olhar para mim como se eu já não existisse senão nas tuas memórias.Nem o doce sorriso que esboçavas com a boca fechada sobre si mesma, límpido e irresistível, como no dia em que me encontraste distraído e verde, disfarçava a antecipação da […] Mais

Antílope

Porque sonhava

Afundava a cabeça na almofadaFundia o corpo nos lençóisPerdia-se na luz que era a escuridãoDa noite que chegada há horasSó agora lhe tocava o serE o pintava de sono De olhos voltados para o seu universoEm distendidos reflexos da vozAbandona as margens seguras de siOnde é senhora do seu destinoPara navegar histórias de quem não […] Mais

deserto mítico

Sobre esta felicidade

Voa solto o sopro da escuridãoSobre um qualquer macaco de imitaçãoDe cinza bicho indiferente e amorfoPerdido no fim de si mesmoDespido da forma que temSaudoso de tempos coloridos e arejados Num mundo reduzido tudo apertaRedutor e retraído é o espartilhoDe vento enjaulado e sol esbatidoDe véus agnósticos fluídosMedos de compendios extraídosRiscando liberdade no ressoado dos […] Mais

Banco de jardim

Sobre Portugal ser o melhor país do mundo

Há pouco, sentado num banco de jardim, pela primeira vez em semanas, meses, sei lá, percebi porque dizem os portugueses e dizem sobejamente os não portugueses, que Portugal é o melhor país do mundo. É que, sentado num banco de jardim inundado pelo sol de março, a pessoa (como tão bem te referes a ti […] Mais

O que Recomendo

Os vampiræ

A vida pelos olhos de quem não vive
(última publicação – 2019).

o zigurate

um edifício mental construído para manter acesa a chama e reforçar a confusão
(última publicação – 2009).