mãos sujas com terra

Por vezes encontro-me escritor

e nesse estado límbico, em simultâneo periférico e regulador, encontro-me agente do inconsciente no universo da razão, despido de tempo e de espaço que dá corpo ao etéreo, voz ao silêncio, rostos aos vultos e faz Aquilino pastor de saurópodes. Uma escrita criativa na medida em que não existia senão no éter da poesia que é o mundo; uma crónica da mente a olhar para si própria com o mundo por espelho.

E traz também a dor e a alegria e a cobardia e o garbo; e também o sonho, a luta, o medo, a angústia, o ódio, o amor [sempre o amor]. Ora de dedo em riste, ora em palavras carícias (caríssimas), que nada custam após serem ditas; e também pelo incómodo que causa em mim e, espero bem, em ti. Disse-me uma vez o Zé Pedro “– Não gosto nada de ler o que você escreve. [– Porquê?] Porque depois fico a pensar nisso.” Maravilhoso! A melhor crítica literária de sempre. Obrigado Zé Pedro.


Arquivo geral

Caderno e tablet

Sobre si 32

Dou comigo a pensar se sobre escrevo o que penso, se escrevo o que sou, ou, por sortilégio que desconheço, escrevo somente as palavras que, como brisas, nos envolvem a todos e eu, de camaroeiro numa mão e lanterna na outra, as vou enredando nas noites de maré vaza e lua cheia que são os […] Mais

face de mulher

Sobre o olhar

Não gostas que olhe para ti. E deixa-lo claro. Não o dizes com a boca, mas com o olhar vago, perdido pelos passeios ou pelo ecrã do telefone. Não o dizes com a boca, mas com o afago que a roupa, tua única fronteira, te dá. Avanças aparentemente indiferente, aparentemente feliz, aparentemente frágil. E eu […] Mais

melão

Sobre o sincretismo

O melhor melão é o que cresce ao lado da malagueta. Aquele que se partilha, desde as suas raízes, trocando doçura por aventura. A dádiva e o recebimento, a troca, de raízes ou de fundamentos de vida, é a única via do desenvolvimento. Venha então o beijo dos Cátaros, venha o branco de Iemanjá, para […] Mais

Cravos vermelhos

C de Camarada 25

Da orla do planalto da sua verdade, olhava a planície da incerteza que se estendia ao infinito, quilómetros abaixo dos seus pés, cravados no chão e ensanguentados de barro vermelho. Trazia numa das mãos a cabeça mirrada, muito para além do seu tamanho original, de um dragão outrora temível e, na outra, a espada, imaculada […] Mais

Gato dormindo em cima de muro

Dormindo 50

Dormindo, é estaca caída, despido do ser, qual cela vazia que, dum panoptico sem propósito, ninguém observa. Vai treinando estar morto, desaparecido do mundo, do seu e do de todos os outros. Porque, se não está nos mundos deles, então eles, enquanto dorme, não estão no seu. E assim ficam, os mundos de todos e […] Mais

Nuvens à distância sobre o mar

Vento Norte

Sinto em mim o vento do norte empurrando para longe a cordilheira de água que escurece o horizonte do olhar ; Como uma montanha mágica ; Donde Os arco-íris fogem ; A frescura do dia é igual ao afago da noite ; e A nortada que passa em mim não mexe os fantasmas bordeantes do […] Mais

Dente-de-leão

Sobre o Dente-de-leão

Na minha negra secretáriaUm dente-de-leão espera partirCalmamente num copo de shotSem brisa que o faça fugir Leve e diáfanoSofre só de pensarO vento lá foraA soprar Dente-De-LeãoÉ frágil o teu coração Dente-de-leão tão quedoE mudo nessa doçuraDe dente mansoQue morde com candura Sonha partir(se) voandoSem rumo nem passaportePor entre pássaros e caosSonhando um muro por […] Mais

Selva

Contigo em todo o lado

Estás comigo em todo o ladoAinda que seja pela noiteNegra fria e de céu veladoSem regaço que me acoite Estás comigo em toda a partePor muito sozinho que estejaConfinado entre a Terra e MarteNum carreiro gélido que flameja Estás comigo no quenteDo tempo vivido amandoO amor de estar presente No silêncio do teu comandoDe que […] Mais

árvores mortas

Sobre a história invisível

(no trono III) Era meia-noite e tinha perdido o melhor de mim.Doía-me ver-te olhar para mim como se eu já não existisse senão nas tuas memórias.Nem o doce sorriso que esboçavas com a boca fechada sobre si mesma, límpido e irresistível, como no dia em que me encontraste distraído e verde, disfarçava a antecipação da […] Mais

Antílope

Porque sonhava

Afundava a cabeça na almofadaFundia o corpo nos lençóisPerdia-se na luz que era a escuridãoDa noite que chegada há horasSó agora lhe tocava o serE o pintava de sono De olhos voltados para o seu universoEm distendidos reflexos da vozAbandona as margens seguras de siOnde é senhora do seu destinoPara navegar histórias de quem não […] Mais

deserto mítico

Sobre esta felicidade

Voa solto o sopro da escuridãoSobre um qualquer macaco de imitaçãoDe cinza bicho indiferente e amorfoPerdido no fim de si mesmoDespido da forma que temSaudoso de tempos coloridos e arejados Num mundo reduzido tudo apertaRedutor e retraído é o espartilhoDe vento enjaulado e sol esbatidoDe véus agnósticos fluídosMedos de compendios extraídosRiscando liberdade no ressoado dos […] Mais

Banco de jardim

Sobre Portugal ser o melhor país do mundo

Há pouco, sentado num banco de jardim, pela primeira vez em semanas, meses, sei lá, percebi porque dizem os portugueses e dizem sobejamente os não portugueses, que Portugal é o melhor país do mundo. É que, sentado num banco de jardim inundado pelo sol de março, a pessoa (como tão bem te referes a ti […] Mais

página do projeto LONO

Projeto LONO

O Projeto LONO é um espaço de oficinas educativas para crianças dos 0 aos 9 anos. Proporciona atividades criativas, onde as brincadeiras surgem naturalmente a partir de objetos e temáticas incomuns. Um espaço a visitar e deixar as crianças expressar-se. Sabe mais em: https://www.lonoproject.com Mais

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céu azul

Y– ou, Céus Azuis

Rendo-me, resignado, ao inútil do tempo eterno que é o céu de março, matizado ainda de fevereiro. De como o azul se deixa vencer pelo sol, pelo seu corpo imberbe, de astro rei que faz bailar todos em seu redor, em prisão rodopiante. É o preço a pagar pela vida; ser uma pedra gelada e […] Mais

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Beijo

Pedi-te um beijo

Pedi-te um beijoDaqueles pequeninosQue suspiram ao descolarOs lábios secos pela sofreguidãoDo amor que nos ata a alma e os corpos Pedi-te um beijoDaqueles pequeninosE deste-me uma vida todaEm cores de sonho de eternidadeDa tua boca o mar dos beijos que te peço Mais

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Icebergs

Estar além

Estar além, pá. Estar além. Como se a nossa vida não vivesse em nós, mas nos sonhos de viver e nas vivências de sonhar. Como se o estar aqui não fosse mais do que uma projeção passada do local onde, na realidade, já estamos, mas ainda não nos demos disso conta, senão no sonho do […] Mais

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Graffiti máscara covil-19

X

Percorre no profundo de tiQual lagoa no fundo do marSereno segredo que senti As quentes candeias do teu olharPor mares castanhos me perdiDesfolhando o livro de te amar Nos dias lentos de pandemiaEm fresco abrir da boca por dentroBrilha forte onde antes se escondia E lavra do esmorecido o centroFulcro da paixão de cada diaGerme […] Mais

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Nascer do sol sobre o mar

Que o sol da tua boca

Que o sol da tua bocaSeja o meu dia mais frioPor temor a um calor vazioInflado de nuvem barroca Que o céu do teu corpoSeja o mais perto de mimAmado amante sem fimDespido, o desejo encorpo Que a cor do teu sopro doceSeja a vida nas minhas veiasDe castelos móveis sem ameiasSonhando que medo me […] Mais

Homem em pé na proa de bote

Capitão do meu coração

Quisesse eu ser num dia só o teu abraçoApertado no corpo de nós os doisDeitados no ventre que se encheu depoisCaminhando firmes rumo ao cansaço Quisesse eu ser o Capitão da minha almaNo vasto horizonte do olhar namoradoQue deixa cativo o mais forte e testadoImpotente perante a voz que me acalma Não quereria nem mais […] Mais

Onda ! Mar

Sobre o caminho

Flor, ainda fresca, ainda com pétalas preguiçosas por abrir, sorri e pergunta qual o caminho. Sobre o caminho, o homem que ao seu lado se senta, com uma única flor por companhia, perde-se na pergunta. Ele, que tem uma única flor por companhia, vê passar a humanidade em ritmos desumanos de indiferença sobrevivente. Perde-se na […] Mais

O que Recomendo

Os vampiræ

A vida pelos olhos de quem não vive
(última publicação – 2019).

o zigurate

um edifício mental construído para manter acesa a chama e reforçar a confusão
(última publicação – 2009).