Cartas do Vampiro

Se as festas fossem boas…

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Se as festas fossem boas, Saramago veria seu delírio concretizado. Se as festas fossem felizes, não haveria Natal dos hospitais. Se o Natal fosse bom, não haveria jantar de Natal dos sem abrigo. Se o Natal fosse feliz, não haveria campanhas de Natal solidário, onde animais com ar parvalhão nos impingem cachecóis, livros ou CD’s. Ainda assim insistimos em desejar a todos um bom Natal, a todos festas felizes, seja amigo ou conhecido, estranho vizinho, empregado de café, parceiro de autocarro. Deseja-se bom Natal entre passas de um cigarro. Tenha um bom Natal, diz para não ficar mal. Para não ser deselegante. Parece sentido mas com a face é dissonante. E se sabe de alguém a quem outro faleceu, pergunta de forma leviana: que Natal será o seu? O dele, do outro, a quem falta agora um pedaço, pois que ele di-lo com os filhos no regaço e a mulher na cozinha, vergada a espinha; enterrada em rabanadas e panelas a fumegar. Despacha-te que o Pai Natal está a chegar. Chega o tipo e é uma fraude, qualquer idiota de três anos o vê, só não sabe porquê. E chora. E encolhe-se. E depois adora e rasga e deita para o lado. Vai para a cama com o último presente que abriu e a mãe joga no lixo aqueles que já partiu. Ele escorre mais um copinho e diz que é hora de gritar baixinho. Ela limpa mais loiça e compõe os arranjos; ele deixa as migalhas na mesa e diz que são para os anjos.

Depois é feriado e tudo está fechado. Não há pão nem café e o cacete é seco e a sala cheira a chulé do queijo que ficou destapado. No reencontro dizem: mais um Natal passado.

Um dia
O som nada melhor que as pessoas

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