Sitiado na paragem de autocarro, aninhado em cima do banco para fugir à chuva persistente, a noite gelada inunda-lhe os olhos tristes. Chega-lhe aos ouvidos o ruído ocasional de um carro que passa e fere a rua alagada, salpicando a mala onde, entre alguma roupa, duas fotos dos irmãos e um prego de meia galeota, carrega toda a sua vida.
O autocarro que adivinha de cada vez que olha para a curva ao fundo da rua deserta, não chega. Passa da hora para quem acaba o dia tarde e ainda não chegou a de quem o começa cedo. Apenas o desgosto e a saudade o acompanham nesse hiato onde quem deambula não sabe se há-de dizer boa noite ou bom dia. Tal como esses, espera perdido; espera derrotado.
Chora como nunca chorou. Sente o sal das lágrimas engrossadas pela chuva nos cantos da boca. É a única pessoa no mundo onde não há casas, apenas ruas. Pensa que melhor seria morrer ali mesmo, ao frio e à chuva e deixar que o seu corpo, despido de memórias, fosse levado, em escorrência, pelos algerozes em direção ao mar e daí, de volta às nuvens.
Ao longe, alguém sacode o guarda-chuva, como quem sacode a comiseração de cima de si; e eis que outro ruído familiar o desperta; é o autocarro que dobra a esquina; desce do banco; enxagua as lágrimas o melhor que pode e limpa a cara com a mão e respira; entra, pica o bilhete, senta-se junto à janela; o autocarro arranca, quente e luminoso; pela janela, conforta-o sol a romper por entre os prédios; é um novo dia que começa.






