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Banco de jardim

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Deitado por morto num banco de jardim. Inundado de sol e cantos de pássaros, dá caça a sombras fugidias na esfera celeste dos olhos fechados. A radiação ultravioleta submete-o ao seu abraço maternal, enquanto a leve brisa, fresca e errática, lhe devolve a esperança de poder voltar do calor paralisante. As mãos sobre a barriga temperam a respiração, enquanto os óculos escuros domesticam a prepotência do sol. O mar verde que o rodeia, salpicado de flores brancas e amarelas, convive plácido com o atropelo dos pés de cães e pessoas, dos melros, da seca iminente. Música vinda da esplanada sobranceira, torna-se contraponto, indesejável mas necessário, ao limbo que o prende ao banco de jardim. Pequenas moscas e abelhas, atraídas pela humidade produzida pelo seu corpo, obrigam a agitares inúteis da mão. 

Memórias, cogitações e ruminações trespassam o pensamento tal como as gaivotas que se interpõem brevemente ao sol, provocam brevíssimos momentos de sombra. Já os sentimentos, esses, são como as nuvens, passando demoradamente, por vezes inamovíveis, até à altura em que, como apareceram, desaparecem sem deixar traço. 

Vozes de pessoas, de música, de aviões, são nada mais que o pano de fundo desta prisão voluntária. Apenas o som ocasional de uma moto corta, brevemente, o sarcófago de calor que anestesia a vida. As sombras difusas desapareceram e um universo de vermelho diáfano, próximo e intangível, se espraia por onde a vista dos olhos fechados alcança. É quente, como um amor opressivo, que fere tanto quanto acolhe. O corpo começa a expressar-se, tal como as rãs no tanque de pedra. Enquanto elas celebram a sua vitória sobre o inverno, o corpo exaspera por se sentir confortavelmente confinado.

Fosse assim a morte e estaria no céu. Preso mas livre; incomunicável, mas ligado ao universo; só, mas absoluto na sua solitude. Para se manter vivo, roga à brisa o desconforto refrescante da frescura de uma manhã primaveril, e assim, somente assim, resiste.

Água
Porque não és como ele

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