Saiu da casa dos pais de rompante, na noite de uma quinta-feira de tempestade. Mala ao tiracolo, um sapato ainda na mão, enfrentou a chuva copiosa e os relâmpagos que iluminavam de tal modo a cidade que, por instantes, se conseguia ver a cor aos prédios, ler as matrículas aos automóveis e contar os sem-abrigo nos recantos da cidade. No momento em que abria o guarda-chuva, o vento destruía-lho. Deteve-se um pouco, enfiou o sapato e seguiu ligeira.
Inundava-o uma sensação de liberdade. Só, sem perspectiva do que fazer ou onde ficar na hora seguinte a ter saído da casa dos pais, emprestou-lhe uma noção de que, a partir daquele momento, seria dono de si, nada lhe seria vedado e tudo poderia alcançar.
De mala na mão, o guarda-chuva deixado numa papeleira, dirigiu-se à paragem de autocarro, onde se sentou mal abrigada. Um medo terrível a envolveu e chorou mais do que a noite que agora lhe pesava como um adversário inelutável. E assim ficou Oriana, por entre a cidade que, escondendo-a, a expunha. Desesperada, confortava-a a comichão nas costas e tudo o que daí adviria.







