Seja lá o que isso for
Começa pelo início, como se tal fosse possível. Pois tudo aponta para que até o início – que cada início – não tenha sido mais do que um recomeço.
Começa então pelo teu primeiro início e dele recupera as memórias que lhe precederam. Encontra-as nos universos: no teu e que no não é o teu.
O teu universo dirá existir em ti algo tão valioso que merece continuidade, eternidade. O universo que não é o teu – que não és tu – se o leres corretamente, mostra-te que o universo em ti, tanto quanto o teu ser, são convergências de matéria, tão breves e fugazes e completamente desprovidas de sentido.
Porém lutas interna e exteriormente pela perenidade, pelo auto conquistado direito a não desaparecer no universo que não és tu. Sussurra-te o daimon, chamaram-lhe assim, que foste criado por vontade alheia, sem escolha senão a de aceitar o desígnio que te foi confiado.
Vergas-te à esperança de que o teu universo se perpetue no favor de algo ou ignoras esse favor e vives sem rumo que não o do desejo. Mas em ambas as situações vives subjugado. Pois que, mesmo aceitando ou ignorando, mesmo assim, reconheces-te como inferior; um produto. Nada perguntas e, como não interrogas, nada te faz, em última instância, sentido. Tudo é para ti circunstância.
Começa pelo início. Aquele que te irá libertar. Escuta a biologia de que és feito; onde estavas há cinco mil milhões de anos; onde estarás daqui a trezentos anos.
Percebes que tudo é universo; inclusive o teu é tu que temporariamente o acolhes e animas. Que não há início por vontade alheia; que não há sequer vontade alguma. Apenas recomeços, onde tudo é fluir, manifestação contínua e irrepetível da mesma matéria.
E tu, manifestação única e breve dessa matéria, és tão magnífico que consegues a proeza de te pensares como um ser menor que busca aprovação para existir.
Começa por perguntar: Porquê?







