Textos

O cão gordo

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O que pensa o cão gordo ao puxar a garrafa de plástico sem volta possível ao dono gordo?

  • Que arranca ínfimos pedacinhos de plástico com os dentes de cão e os engole e os assimila na sua corrente sanguínea e estes lhe alteram a sua epigenética de tal forma que, tivesse Jean Lamarck razão, a prole que, ainda que tardiamente, lhe sairá do ventre, terá a pele translúcida e corrugações ao longo do dorso azul;
  • Que é um cão assim gordo por não ser mais do que um reflexo animalesco do seu dono, gordo, que o alimenta em demasia, tal como faz consigo próprio, talvez porque os donos tendam a ser gordos por comerem mais do que lhes pertence, emaciando os outros de quem se julgam igualmente donos;
  • Que está a ficar cansado de puxar tamanha gordura e que, ainda que o instinto lhe comande a posse da garrafa, apenas porque se mexe, toma-se de grande exaustão e, displicente, abre a boca, põe a língua de fora e recebe uma festa da mão gorda do dono que entretanto abandonou também a garrafa no chão do jardim;
  • Que aquela luta, cão gordo contra dono gordo, é a sua razão de viver e que sem ela seria um volume, dupla ou triplamente embalado em sacos de plástico a caminho da valorização energética;

O cão gordo despreza qualquer um desses pensamentos. Deitado sobre o dorso, um olho na relva e outro no céu azul com nuvens a fugir à nortada, esvazia a mente, como o mestre zen do quarto esquerdo lhe ensinou. Ouve o carro elétrico na rua distante e recorda com saudade que foi ali, na curva que o turístico veículo acabou de dobrar, que o separaram da sua mãe.

Depressa demais

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