Tudo começa com a tomada de consciência de que um eclipse total do sol é algo que poucos experimentam na vida. São feitos planos: onde ver; o que é necessário levar; como lá chegar. Uma vez no local, com tempo e verificadas as condições ótimas de observação, antecipa-se, com expectativa, o trânsito lunar sobre o sol.
Começa o percurso da lua sobre o disco solar. Primeiro de forma quase imperceptível, uma mordiscadela que vai crescendo com o passar dos minutos. À volta, o mundo dá conta disso e responde complacente. Os sons esbatem-se, a brisa toma alento e arrefece a paisagem com uma ténue força. O sol, há medida que perde terreno, adianta o crepúsculo levando cães e outros animais a estranharem a quebra ao ciclo natural.
E é nessa atmosfera de bosque feérico que a lua, a milímetros de conquistar a totalidade do círculo solar e assim o roubar temporariamente ao mundo, arroga ser do tamanho do sol, benesse da proporção dos 400, e permitir-nos 46 segundos de maravilhoso. Tirar os óculos e ver a coroa solar. Olhar com atenção e ver estrelas no céu diurno. Beijar quem amamos em silêncio, abraçar-mo-nos em segundos de eternidade.
Quarenta e seis segundos depois, um diamante maior que dezenas de Terras devolve-nos à certeza de que tudo remete a passado. Diz-nos também, sem complacência, que tudo é transitório na vida que julgamos nossa e a que nos apegamos, sejam pais/avós amados, sejam eclipses totais do sol.







