“Quero-te só para sonho”, dizia o poeta verdadeiro. O que com uma flor revela a beleza do mundo e com um ai expõe a dor universal. Beleza que não é a sua, nem a de nada, nem a de ninguém que o rodeia; dor que não é a sua, nem a dor dos outros, mas a dor que arranca ao vazio e à insignificância da existência. Com a beleza que descreve sem a alcançar e com a dor que é sua, mas não lhe pertence, constrói-se o poeta verdadeiro; um não ser porque é feito de beleza e de dor que não existem senão nos mundos que pinta, lavra e grava na pedra da mente dos que vivem fechados à canção da vida. É figura triste, ainda que sorria; é ermita na montanha, ainda que abraçado; é insatisfação permanente, ainda que celebrado ou tranquilamente ignorado; é colunata jónica, ainda que em ruínas.
Mas todo o poeta verdadeiro é carregado por uma pessoa. E essa sim, sente, padece, alegra-se, constrói e vive como qualquer outra pessoa, das muitas fechadas à canção da vida. O poeta não vê e não ouve, apenas sente. Sente o mundo que envolve a pessoa, sombras na parede da alma que julga ter, projeções de uma realidade que lhe é vedada por não ter existência corpórea. Imagina então a beleza e a dor daquelas sombras e projeta de volta um mundo ficcionado e surreal que contamina a pessoa. O poeta é a formiga á volta da qual órbita o sol. Por ser enorme sem existir, o poeta detesta e ama a pessoa porque esta é frágil e não lhe revela o mundo; a pessoa detesta e ama o poeta porque este lhe devolve um mundo enorme e profundo que os seus olhos não alcançam e têm dificuldade de aceitar. Nasce daí a dor verdadeira e através dela chega a beleza aos olhos e ouvidos dos que vivem fechados à canção da vida. Vêem a beleza, os pobres, mas não sabem que é dor; veem a dor, os coitados, mas não sabem que é bela. Tal está reservado às pessoas que carregam portas verdadeiros.
Quando ouves o poeta dizer Quero-te só para sonho, move-te a construção inusitada da frase; acordas da modorra para um amor que nunca experimentarás; invejas ter sido tu o gatilho dos sentimentos em ti despertos, mas nunca, nunca saberás o que é Querer alguém só para sonho.







