Textos

O cão magro

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O cão magro, de cor incerta a julgar pelo pelo crespo, mais de sujo que de gene, e da fome marcada no lombo, a julgar pela costela à vista, levantou a cabeça, e apenas a cabeça, para melhor cheirar o cão gordo que, indiferente, seguia à trela do dono no passeio oposto. Ainda abanou a cauda e soltou um breve latido, mais a dar-se a conhecer do que a desafiar o congénere. Como não obteve resposta, nem um olhar, quanto menos um abanar de cauda ou boca aberta, pensou, como é típico aos cães pensar, que seria bom ser um cão gordo, ainda que indiferente, como o que passava do outro lado da rua. Separava-os uma rua apenas, mas parecia mais que mundos distintos, estanques, os apartavam. De volta às ruminações próprias à espécie, via-se de papo cheio, pelo bem tratado e atitude, ora blasé, caso se tratasse de se destilar dos mundos da fome, ora cavaleira caso se tratasse de se mostrar valentia perante quem outrora fora. Imaginava-se bem posto, roliço e luzidio, nunca passando fastio, senhor da atenção e da fazenda de um qualquer dono que o nutriria, amaria e agasalharia. De olhos quase fechados, deleitava-se com imagens de sacos de comida maiores que ele, petiscos feitos de milhões secos e moelas de galinha, bolas de ténis lançadas placidamente em relvados imaculados, alcofas lavadas, cobertores sem rasgões nem pulgas e priscos amores geracionais depositados na sua, ousava pensar, pessoa!

Quase adormecido pelo onírico sonho despoletado pela passagem do cão gordo, despertou-o ver o seu semelhante tentar cheirar a disponibilidade da Fofinha e ser ferozmente puxado pela trela pelo seu dono. O torpor desvaneceu-se e, revigorado pela imagem, uma nova linha de cogitação o passou a mover. Assomou-se-lhe a ideia que deveria mostrar-se reverente perante a mão que lhe proporcionava tamanha benesse. Via-se em prisão domiciliária com uma ou duas saídas precárias diárias. Sempre à trela, estaria impedido de se aliviar e deixar a sua marca onde conviesse à sua vontade e em benefício da sua afirmação pessoal. Sentiria os puxões da trela segundo os ânimos ou o calendário do seu dono. Estaria também à mercê do dono nos mais diversos aspetos: da sua temperança, da sua riqueza ou da sua empatia; poderia sair-lhe em sorte um déspota, um dono que o fechasse num carro num dia quente, outro que desse restos de comida; outro ainda que o acorrentasse num canto de um corredor de garagem e lá o deixasse, ao frio e à sede; podia também sorrir-lhe a fortuna e ser propriedade de alguém que o apaparica com tosquias e banhos frequentes, coleiras e pingentes com o nome que lhe deram; açaimes com debruns brilhantes e vacinas e comprimidos para a leishmaniose que levou o Pintas sem dó nem piedade.

Em oposição, o seu estatuto era, em praticamente tudo, a negação do estatuto do alheado comparsa que havia já dobrado a esquina e o seu cheiro se confundia com os odores da cidade. Aproveitou então para pesar, na forma de questionamento, os prós e contras de ambas as situações. Ser cão gordo ou ser cão magro? Feitas as tabelas de mercearia, deu-se conta, como qualquer cão que se dê a pensar, que o amor do dono se paga com obediência e a liberdade com o desconforto de, ainda que isso o mate, se saber vivo.

Carthago delenda est

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