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Na praia I

villain / vilão

O sol estava quente, a tostar. Deitado na esteira, esticado, braços ao longo do corpo, ligeiramente arqueados e com as palmas das mãos voltadas para cima, nada mais sentia que calor invadindo-lhe o corpo. Gotinhas de suor corriam da testa em direcção às orelhas e nelas empoçavam. Acrescentando à sensação de forno, como se voltasse ao ventre da mãe, havia aquele clarão vermelho alaranjado que lhe inundava os olhos fechados. Seria uma tragédia não fosse estar assim por vontade própria, espraiado num areal de sonho, com palmeiras ao longe, espaço à sua volta, aves marinhas sobrevoando-o que se deixavam adivinhar pela sombra fugaz que lançavam sobre si. E seria uma tragédia porque, sobretudo, não aguentaria ali estar não fosse o vento que docemente o arrefecia, como uma mãe que nos sopra a testa febril. O vento, morno e suave, não se lhe opunha, antes temperava o sol. Saturados pelo calor e pela cor, os sentidos esmoreciam. Pouco ouvia, ou pouco ligava ao que ouvia. Chegavam-lhe aos ouvidos apenas ecos soltos: o murmúrio das ondas; fragmentos de conversas alegres de brincadeiras de crianças inexistentes, pios das aves marinhas ou os laivos de vento pincelados a espaços irregulares. Pouco via, senão o clarão vermelho alaranjado que cobria toda a abóbada celeste dos seus olhos. Pouco sentia, ou sentia apenas o calor intenso que o assava até ao ponto de caramelo. Estava feliz e em paz. Quando tal, o suor nas orelhas era tal que o obrigaria a mexer-se. Obrigaria, porque mesmo assim não se mexeu. Só quando se tornou verdadeiramente incómodo é que, muito a custo, se sentou na esteira cruzando as pernas à chinês. Ao abrir os olhos, só um poucochinho, deparou com ela, água pela cintura, mesmo em frente a si, acenando, chamando-o, encantando-o para si. De tudo o que sentia quando estava deitado, as palmeiras, as aves e as vozes, tudo se tinha esvaecido. Nem aves, nem palmeiras, nem nada. Via que falava, cantava talvez, mas não a ouvia. Um sibilar surdo chegava-lhe aos ouvidos, como um feitiço lançado com doçura, incerto entre se ouvia ou se imaginava que ouvia. Só o mar, e mesmo esse de modo sussurrante, dava conta de si na forma sonora. Todo o resto era exclusivo dos olhos. Com o corpo preso e lento, levantou-se da esteira. Penosamente a fitou, semi-cerrando os olhos e gritou: Sofia!

Ela não ouviu, ou se ouviu, não reagiu. Apenas acenava, chamava-o, encantando-o para si. Deu alguns passos para a frente e hesitou ao vê-la voltar-se para o mar. Sentindo-o em dúvida, tornou-lhe um sorriso e um aceno e mergulhou. Largou a passos decididos em direcção ao mar, que passaram a marcha e logo a corrida. Entrou triunfante no mar: dois passos curtos e um mergulho para a frente. Estavam frente-a-frente. Sofia sorria e chamou-o com os dedos. Aproximou-se dela e deixou-se apanhar pelos braços dela. Entrou nos seus lábios, no seu mundo e no seu sonho.
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O Urso de Pelúcia

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Na praia II