Traçavamos aqui o limite ocidental e metafísico do nosso mundo de férias nos anos entre o fim da infância e os primeiros anos da juventude. Para lá da pedra, enorme e atávica, visível assim apenas na baixa-mar das marés vivas de setembro, estava muito mais que o imenso oceano azul. Estava o intangível, o limite da aventura, da imaginação e do sonho. Entre ela e nós, uma garganta, sempre cheia de água, à laia de piscina, onde mergulhávamos de uma saliência na pedra oposta, igualmente grande, e onde o acaso talhou uma base perfeita para o mergulho. Por ser de difícil acesso e nunca totalmente exposta pela maré baixa, só os mais afoitos a visitavam.
Da areia fina do fundo, rompiam frondosas algas, presas às pedras que a areia cobria e, por entre elas, plácidos peixes cruzavam a água do mar, recatada pela proteção que as duas grandes pedras ali criavam. Também por lá se passeavam caranguejos, felizes, estivesse tal sentir ao alcance dos artrópodes, pela segurança do recanto.
Toda aquela imensa paz, apesar do ruído das ondas que embatiam na face ocidental da pedra e pelo subir e descer da linha de água inerente à ondulação, era apenas perturbada pelos infindáveis mergulhos, ora de cabeça, ora em bomba, pelos sprints de natação e pelos risos, chamadas de atenção, vernáculo copioso e conversas alarves dos poucos que daquele lugar faziam um terceiro espaço de amizade, partilha e cumplicidade. Era no poço, na proteção das grandes pedras, gigantes que nos guardavam do mundo enorme, que ficávamos a saber que havíamos vencido o mar e que mostrávamos, mais do que aos outros, a nós próprios, que algo em nós se perdeu em prol de um ser mais diverso, mais inquieto e disfarçadamente inseguro. Ao chegarmos ao poço, transforma-mo-nos em seres novos. Sequiosos de aventura e conforto nos pares, que agora se revelavam belos, desejáveis e irritáveis. Éramos amigos e ai de quem dissesse o contrário.







