quem sou senão quem posso ser
quem posso ser senão o que querem que eu seja
que querem que eu seja senão o que todos são
que todos são senão o que não são
que não são senão o que queriam ser
que queriam ser senão quem são
quem são senão quem não são
quem sou senão quem não sou
quem é aquela de espinha torta
que abaixa o olhar submisso
mas lá fora é fria que corta
divide fere e nem dá por isso
quem é aquela tão bacoca
que ampara o santo pão
mas quando o leva à boca
revela língua suave de vilão
quem é aquela tão recatada
que no olhar só traz candura
mas no quarto acompanhada
se profana vende e desfigura
quem é aquele que é sorrisos
dentes brancos e afectos
mas que morde até aos sisos
as costas e enche os rectos
quem é aquele que é moral
exemplo firme de rectidão
mas que mente e diz mal
de tudo e de todos podridão
quem é aquela que trabalha
passa as horas aqui metida
mas as outras abrutalha
levando a vida abscedida
quem é aquele que tão bom
faz da vida partilha capital
mas que esconde no coraçom
passado escuro e mortal
quem é o gordo rosado senhor
que enche o prato da esmola
mas que de todos tem penhor
e diz que mata e diz que esfola
quem é o que conduz a função
prega o amor divino e a virtude
mas emprenha de empurrão
a criadita mais pobre e rude
quem é o que bate no peito
herói valente puro e paladino
mas ao espelho não tem jeito
pois vê apenas um cretino
quem é aquela que ao colo
traz os seus filhos pequenitos
mas a outras fez grande dolo
matando-lhes os pardalitos
quem é o que proclama
que a esposa é sua rainha
mas longe deitado derrama
o seu adn pela palhinha
são estes os maus cristãos
mas muitos outros haverão
se têm o mundo nas mãos
como inverter a situação?
mas
quem poderá por bem dizer
quem ali vai é mau cristão
pois por que se arrepender
cheio está nosso coração