Pouco depois de enterrar
No chão da sua cozinha
O maior amor da sua vida
E o universo de emoções
Que tiveram ou que viriam a ter
Fechou a casa
Ao mundo
E ao passado
Regressou
Donde não mais saiu
Das suas pernas nuas cresceram raízes
Levantando os ladrilhos da cozinha
Penetrando fundo na terra da casa
Agora morta ao mundo que lá fora
Corria incólume e indiferente à dor
Dos seus cabelos saíram tensas teias
Ressoando a felicidade perdida
Invadindo o ar e tornado-o pesado
Lento como a saudade que a consumia
Pela casa rasteja a canção da morte
Ecoando no seu corpo arqueado
Ampliando os ecos da felicidade
Que outrora pintou as paredes
E as janelas com a leveza do amor
Permanece a casa fora do tempo
E ela de dentro dela desligada
Do mundo que a esqueceu
Como se esquecem os cães
Que nos morderam uma única vez
Permanece Renata fora do tempo
Fundida com a terra húmida agora
Parte do seu corpo e do seu ser
Alimentando-se do meio amor
Que a condena a uma vida
De cem anos de solidão







