Cartas do Vampiro Textos

Depois da paragem

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Atravessado no banco, seguia fixamente, e já ao longe, o voo do último dos abutres que a circundaram do alto por quase toda a sua vida. Sempre teve jeito para com os animais. Lembrava-se da facilidade com que toda a espécie de pássaros lhe vinha comer à mão. Certa vez, frente a um lago, um guarda-rios pousou no seu ombro e, tomando-o como poleiro de pesca, ali ficou, imóvel e atento, até que um tremeluzir na água o fez precipitar-se e caçar um pequeno peixe. Doutra vez, numa esplanada da cidade e entre amigos que ruidosamente debatiam sobre como tudo tem por base nada, o mesmo nada que assenta em tudo, um casal de pêgas começou a bicar-lhe a bainha das calças, pedinchando o fiambre que sobressaía do croissant. Nunca um cão sequer lhe ladrou, nem nunca nenhum gato se furtou aos seus afetos. No oceanário, os peixes aproximavam-se dela e nos jardins zoológicos, os bichos paravam seus afazeres indolentes para o fitar, como quem suplica a sua atenção. Foi esse jeito com os animais, assim o definia para não ter de pensar muito mais nisso, que a fez menosprezar o bando de abutres que, desde que se lembra, o vigiava do alto. Agora que partiram, temeu ter perdido esse jeito e empalideceu. O relógio indicava que o céu límpido dava ao sol carta branca para lhe aquecer corpo e planos, especialmente depois de uma madrugada tão fria. Planos que estiveram congelados por anos, como se fossem crimes, podiam agora derreter a fluir livremente no seu cérebro para depois escorrerem-lhe para as mãos e assim dar corpo os instrumentos com que construiria a sua nova vida.

Temeu parecer patética, assim sentado, num banco de jardim, ociosa e desejando secretamente que as aves se juntassem a ele na sua solidão. Chegou a sentir que desperdiçava este recomeço, que se entregava ao ócio ou ao resíduo da dor que lhe moldou o ser. Recordou-se então que se tratava de um início e deixou-se ficar em paz.

Perante a paisagem serena e viva que tinha pela frente, como se da realidade se tratasse, pode ainda refletir sobre a vida que desaparecera com a chegada à paragem. Das escolhas que foi obrigada a fazer e dos caminhos que não o deixaram seguir. Sentiu-se livre de todas essas escolhas, das que fez, das que não fez e das que fizeram por si. Livre de todas as escolhas que tornaram a sua vida uma prisão até ao momento em que percebeu que lhe bastaria uma frase para ser livre:

– Eu nunca serei quem tu queres que eu seja.

Renata