1. Os bancos espalhados à volta do jardim, de um vermelho cansado, mais soalheiros ou mais sombrios, consoante a sorte de árvore que os apascenta ou a hora do dia, estão, ora habitados, ora devolutos. Nesta hora de sol a ser sol, e sem obstáculos à sua solidão, os bancos sombrios estão quase todos habitados; os soalheiros, por sua vez, estão todos devolutos. Puramente circunstancial. Dá-se por garantido que os habitantes daquele mundo não discriminam bancos por serem soalheiros ou sombrios. Antes escolhem ou preterem este ou aquele por preferirem um sol obstaculizado. Como se o astro fosse, na sua solidão, demais, demais para qualquer habitante, apesar de estar a cento e cinquenta milhões de quilómetros de qualquer um deles. tal como o gengibre, inebriante e apetecível, mas apenas apreciado se temperado ou diluído em algo que o impeça de ser o que realmente é; forte e destruidor.
1. Ainda que de maneira transitória, os habitantes dos bancos vivem neles pedaços significativos das suas vidas. Homens sós fumam cigarros enrolados a pensar nos próximos, tomam café em copos de papel, mergulham em universos minúsculos de telefones móveis. Mulheres sós, mergulham em universos minúsculos de telefones móveis. Homens na companhia de outros, homens idosos ou ociosos, conversam sem ouvir os pares, pensam em voz alta coisas suas que parecem interessar apenas a si mesmos. Por cortesia, fingem escutar os outros, abando mecanicamente a cabeça, numa dupla hipocrisia ditada por códigos sociais que não veem porque são os seus. Duas mulheres que vigiam deslaçadamente crianças que poderão ser os seus filhos; alternam-se em solilóquios sobre o emprego ou sobre questões familiares, sobretudo sobre como não são apreciadas pelo que fazem e pelo que dão de si.
2. Os filhos, partindo da certeza que são (ou foram) filhos de alguém, nadam livremente em corridas pelos relvados e carreiros que rodeiam as ilhas. Gritam, correm e gritam de novo. Cansam-se na partilha de brincar. O mais velho foge do mais novo; este sabe que nunca o alcançará, mas não desiste; o outro, ao vê-lo esmorecer, abranda para fugir no último segundo. Ao navegarem livres, por entre relvados e carreiros, as crianças ensinam-se muito mais do que alguma vez farão o por elas.
3. Um casal pobre aportou a uma das ilhas com sacos e mais sacos reutilizáveis cheios de roupa, comida, tralha, um guarda-chuva e um rádio a pilhas, sensivelmente metade do tamanho de um tijolo de sete. Após discutirem e de se queixarem da sua condição, ele adormeceu e ela apoiou o queixo na mão esquerda, encostou o rádio ao ouvido direito e seguiu o homem num sono razante. Um homem dos seus sessenta anos, vestido como se tivesse trinta, senta-se por momentos, a boiar num dos relvados, junto a uma palmeira de um castanho esverdeado alto.
5. Os mais jovens que não as crianças imparáveis, os homens e as mulheres cruzam este mundo sem o conhecerem, sem nele aportar e sentir o bater das asas dos pombos, o chilrear frenético dos melros, o crocitar desafinado das pegas invisíveis. Passam carregando sacos de compras e fardos de vidas deslocadas em universos minúsculos de telefones móveis com o olhar do cristão que transita aguardando a chamada para a verdadeira vida.







