“Mason folheou todo o relatório e estudou as fotografias. Della Street olhava-o em silêncio, fumando um cigarro e acabando um cocktail.
Pierre trouxe o jantar, admirou-se da distração de Mason e disse galantemente para Della Street:
— Fico vinte anos mais novo, aposto o meu braço direito.
Não — emendou de repente — com vinte anos a menos, Pierre precisava do seu braço direito.
Mason olhou-o e sorriu.
— A propósito, Pierre. Você tem uma extensão no telefone da sua secretária. Fazia-me o favor de o pôr aqui? Preciso de fazer uma chamada.
Pierre suspirou:”(1)
— Mason. Porque não usa o seu telefone móvel?
Mason surpreendeu-se com a pergunta de Pierre e retorquiu.
— Telefone móvel, Pierre? A que se refere?
Pierre, levantando-se da cadeira onde se havia recostado momentos antes, levou a mão ao bolso esquerdo para dele tirar um misterioso objecto rectangular, liso e brilhante, de um negro profundo como os seus companheiros nunca haviam visto e semelhante a uma tabelette de chocolate. Seráfico, como sempre, apresenta-o a Mason e Della Street, dizendo simplesmente:
— Telefone móvel. Algo como este aqui.
Mason e Della Street aproximaram-se intrigados.
— Pierre. Que bela cigarreira tem! Não me havia dado conta que fumava.
De igual modo, Mason elogiou Pierre pelo seu bom gosto em cigarreiras mas, ao contrário de Della Street, sabia há muito, que Pierre não era fumador. E isso deixou-o com um olhar intrigado de detetive que já viu mais do que o que devia. Pierre, apesar de se mostrar grato pelos cumprimentos de Della Street e Mason, persistiu:
— É, de facto, um belo objecto, mas não, não é uma cigarreira. É um telefone móvel.
— Sei que sou apenas uma mulher — avança Della Street —, mas Pierre, querido, creio que nem Mason sabe o que é isso de telefone móvel. Estarei correcta ao afirmá-lo, Mason?
— Correctíssima, cara Della. Pierre, porque brinca connosco? Aparte dos telefones públicos, todos os telefones são móveis.
Della Street dá uma gargalhada estridente e poisa o seu cocktail na mesinha. Pierre, ligeiramente surpreendido com a declaração de Mason, clarifica:
— Diverte-se Mason. São móveis pois podem pegar-se e deslocar-se de um lado para o outro da sala, ou mesmo entre salas. Mas são fixos porque ligados, por um cabo, a uma qualquer ficha na parede ou, como no caso do meu, ao chão. Este por outro lado, é verdadeiramente móvel. Sem cabos para falar, tão pouco para o carregar.
E dizendo isto, toca num singelo botão até aí oculto aos olhares de Mason e Della Street. A até então circunspecta superfície ilumina-se de cores vibrantes. Mason dá um passo atrás e Della Street solta um pequeno grito que imediatamente cinge, levando a mão à boca.
Pierre surpreende-se com a reacção dos companheiros mas não tem sequer tempo de esboçar uma reacção sua, na medida em que Mason, inconscientemente, aparta o casaco e expõe a arma que carregava no seu tuckable, exclamando:
— Que diabo é isso, Pierre? Não fosse um homem moderno e diria tratar-se de bruxaria.
Della Street aproxima-se de Pierre e toca ao de leve a superfície do objecto, aumentando o brilho do écran e desbloqueando o aparelho.
Mason, incrédulo, exige a Pierre, explicação para o que vê. Della Street, deixa-se levar pela curiosidade feminina e, com um gesto de mão, esboçado ao de leve, pede o objecto a Pierre. Pierre acede e passa o telefone a Della Street. Mason aproxima-se pela esquerda da mulher e Pierre pela direita. Della Street, deslumbrada, procura no olhar de Pierre autorização para operar o estranho objecto que segura nas suas mãos delicadas. Pierre assente e instrui Della Street, simulando o gesto a realizar. O écran ganha novo impulso de brilho, fazendo Mason e Della Street estremecer de excitação.
— Não o deixe cair, cara Della. É o modelo de 2020.
Della Street e Mason olharam para Pierre com um misto de espanto e desaprovação.
— Tolice sua, Pierre. Pareceu-me ouvi-lo dizer 2020.
Della Street riu nervosamente, ao que Pierre, surpreso com a afirmação de Mason e a reação de Della Street, respondeu secamente:
— 2020, efectivamente. Comprei-o novo, ontem. Na loja da quinta avenida.
Mason, agastado, arranca o objecto das mãos de Della Street e atira-o para a secretária. Pierre, sem compreender a reacção inusitada dos companheiros, em particular a de Mason, insurge-se com a ousadia deste e vocifera:
— Está doido, Mason? Isso custou-me mil e duzentos dólares.
— Mil de duzentos dólares? Como é possível? Você compraria uma casa com esse montante.
— Pierre, meu caro — intervém Della Street —. Está a assustar-nos. Porque nos apresenta um objecto incompreensível que afirma ter comprado em 2020. Daqui a CEM ANOS!
— Que farsa é a vossa? — Pergunta Pierre exaltado — Como 2020? Porque afirma estarmos em 1920? Quem são vocês?
Della Street irrompe em lágrimas e procura conforto no porte atlético de Mason. Este, protector, envolve Della Street com o seu braço esquerdo, interpõe-se entre ela e Pierre e puxa o revólver do tuckcable para encontrar Pierre empunhando já o seu.
Della Street já tinha os olhos fechados quando ouviu os disparos e sentiu-se puxada para o chão pelo corpo de Mason. Quando abriu os olhos, viu os amigos de longa data caídos nas respectivas poças de sangue que começavam a tocar-se.
Levantou-se, alisou o vestido, pegou no casaco de pele oferecido por Mason dias antes e dirigiu-se para a porta do escritório. Antes mesmo de a fechar, viu, pousado na secretária a razão da tragédia. Com passos ligeiros, contornou o sangue de Mason que se espalhava pela carpete e chegava já ao soalho de carvalho americano e, debruçando-se sobre a enorme secretária de Pierre, pegou no telefone móvel que guardou cuidadosamente no bolso do casaco enquanto fechava definitivamente a porta do escritório.
(1) – Excerto de “A Morte da Canária”, S. S. Van Dine, 1927
