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Sobre a laranja na mão

Mãos pegam em laranja

Joana olhava a sua vida como quem olha e toma o peso a uma laranja na mão. Sentia-lhe a cor laranja de laranja vibrante, indeciso entre o vermelho e o amarelo, ouvia-lhe o peso que fazia ao saltitar levemente na mão, tomava-lhe o perfume cítrico de laranja acabada de colher da única árvore que agora conhecera como a única arvore e que todas as outras passam à categoria de emanações da árvore original.

Esta laranja era a sua vida. Nunca imaginou poder ter, literalmente, a sua vida na mão. Como crente, sempre imaginou o momento em que, perante Deus, se prostraria diante da sua magnitude, feliz e aterrada por finalmente o encarar numa manifestação que lhe fosse familiar, mesmo sabendo que se o via, o via por exclusiva graça Dele e porque a ela se baixou e Lho permitiu, assim reduzido ao tamanho da dimensão humana, Vê-lo. Mal chegada, ser-lhe-ia mostrada a sua vida, em resenha feita de virtudes e fraquezas. Uma projeção sequencial do que fez, do que deveria ter feito, dos pensamentos que teve ou deveria ter tido. E de tudo o que fez e não fez, pesaria Deus o seu destino eterno e assim a condenaria. O céu por castigo; o inferno por esmola (ou seria o seu contrário?).

Inicialmente desapontada pelo desfecho que lhe negara a crença de toda uma vida e perplexa por perceber o que tinha perante si, sem que nada nem ninguém se lho explicasse ou apresentasse, olhava a sua vida na palma da mão, que não era nem a direita nem a esquerda, com crescente interesse e curiosidade. Acompanhava em simultâneo vários momentos da sua vida. Quando nasceu; como foram difíceis os dias e as noites em que, após um banho no rio, apanhou meningite; como estava o tempo no dia em que saiu pela primeira vez para trabalhar e quais as exatas cópulas das quais resultaria a gravidez e posterior nascimento dos seus três filhos. Tudo isto lhe surgia em simultâneo, sem dor ou conflito, sem que o tempo passasse por ela ou ela pelo tempo.

No instante do tudo, percebeu que a laranja perdia peso. Compreendia que tudo era apenas o seu conhecimento: quem era para si própria e o que apenas a ela revelara, desapareceu no momento em que tomou na mão, a laranja da árvore. Compreendia também que lentamente no tempo que outrora passou por ela, partes da sua vida que partilhara com outros se iam desvanecendo, até que, no mesmo instante do tudo, a sua vida tivesse ficado reduzida ao seu nome, apagada toda a memória do que foi.

No ínfimo momento antes do último instante do instante do tudo, o seu nome foi esquecido; já não havia laranja; nunca houve mão.

paisagem urbana soturna

Le gris, toujours le gris

Homem perante universo

Sobre o céu e a terra