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Fuck’in eden

relvado com margaridas silvestres

Abril 25, 2010

Sonho descobrir um lugar que conheço há muito, muito tempo;

Um sítio onde não tenho idade, porque tem piedade o tempo que a cada minuto arranca o fulgor da juventude encarcerada na mente enlevada, não importa o que aconteça, sem que se meça, ou se mande medir, os contornos dos actos e as suas sombras no porvir;

Um lugar onde as magnólias estão sempre em flor, onde nunca está frio nem nunca está calor, onde, como um rio que corre para cima como o amor, não há dor nem louvor, somente o clamor da calma que pela alma vai desfiando um fluir soprando uma paz borbulhando; sento-me na relva;

Numa clareira no meio da selva, verde refrigério do caminhante errante que se perde e ali se reencontra e lava a sua dor, come laranjas de sua cor, em laranjeiras bordando as franjas em redor, para lá da selva verde;

Os gatos fisgam melros, saltam-lhes furtivos após rastejares esquivos, tirando as garras da doçura das patas fofas e eles fogem, não os gatos, os melros coitados, alam com estridor, fogem ao estupor que é tigre diminuto, bicho astuto;

Volta o gato a ser o que achamos que é, um meigo bruto que não entende puto do que digo mas chamo-o à parte e ele vem, ronronando amuado ora rosnando ora namorando, será o estômago? estará zangado? Estás triste? tens fome? perdeste o melro, toma este, come;

O sol é manso recortado pela silhueta de um ganso, ou dois ou três, ou pelos milhões que deus fez;

O mar, se o houvesse ao fundo deste lugar, estaria no ar a pairar e dançaria com o sol uma dança em caracol e fustigaria as pedras da praia e nelas, pasmado, desmaiaria em sons de encantos longínquos que se perdem a meio caminho dos ouvidos e dos quais, sem mais, recebemos apenas murmúrios lamentosos, vem cá… estou aqui…;

O vento temperaria o ar com sal do mar, mar pelo ar, e o mar a beijar, bater-nos-ia na cara desalinhando o teu cabelo, que o meu nem pêlo, sopra, sussurrando nos dedos dos pés, assobiando, dando calafrios nas pernas e suspirando plumas aos ouvidos;

Partem os gansos e o sol aparece coruscante, tão gentilmente rebrilha que apenas nos aquece e nos dá cor às bochechas;

Está tanto calor… talvez seja do sol, ou talvez de mim, sonhando um amor sem princípio nem fim, como se nunca houvesse nascido, amor sem umbigo;

Deitado a teu lado sou fornalha borbulhenta, fogo que o teu fogo tenta, alongo-me na tua pele, mergulho no teu olhar, prendo-me nos teus cabelos, rebolo na tua barriga, adormeço no teu seio e refreio e paro e faço-me mortiço, não estamos aqui para isso;

Com uma mão colhemos margaridas por entre nossos corpos nascidas por entre as nossa vidas vividas como uma só e sem pó e sem dó e sem mágoa, verdade como água, com a outra afagamos as sedosas barrigas de corsos nascidos de grutas iluminadas por vaga-lumes arco-íris que levantam voo e partem em direcção às nuvens, a meio caminho entre o céu e o universo vizinho;

Têm cabelos encaracolados, as nuvens, de um lado curtos e de outro repuxados pela ventania fugidia que faz tremer a estrela luzidia do mais fundo do céu;

Há-as brancas, algodão na boca, mãos e roupa dum catraio,
Há-as cinzentas pardacentas, mescladas de tons e texturas, de várias fofuras, não se sabe o que são, qual a cor do seu coração,
Há-as negras, lisas sem pregas, lembrando que ainda há refregas a travar que não se farão esperar a quem esquecer o sabor de amar,
Há-as das cores do arco-íris, amarelas rosas azuis, pequenas como pardelas, grandes como bois;

Todas belas e depois, misturam-se e fazem-se outras nuvens, dão parte de si e nisso se engrandecem aparecem de um lado ao outro, tapam tudo e tudo deixam ver, cumprimentam-nos do alto e nós, a vê-las crescer como cresce em nós o desejo de ser nuvem e dar o que melhor somos, trocarmos a nossa paleta genética e deitámos a criar, pôr cá fora quem nos fará imortais, seres diferentes dos demais, amados amadores, amantes amores, escudados de terrores, lançados às feras, que as há e beras, com a certeza que serão belos e justos e terão um lugar onde poisar e amar e fixar a sua cor;

Volto à relva e a ti e mordo-te com dentes-de-leão e chamo-te à razão de te amar
Como quem sonha voar e cair sob o peso de desejar que comigo te deitas neste lugar que sonho descobrir ficar.

Néon “Deve ser aqui”

(des)Assunção

Rosto de Hipólita

Hipólita?