in

Hipólita?

Rosto de Hipólita

Mal abriu os olhos e viu pela primeira vez o mundo fora do manto protetor do ventre de sua mãe, Hipólita encheu o peito do ar fresco da ilha, sentou-se no berço onde a haviam colocado, olhou Otréra com carinho e saltou dele como quem salta uma cerca de jardim, branca, com ripas brancas rematadas em bico; um prenúncio da vida atribulada que a esperava.

Cresceu e fez-se mulher em dias, como era costume entre as suas. Rainha imortal, sucede a rainha imortal. Seu pai veio. Não houve coroação porque não tinha coroa; não houve entronização porque não havia trono. De sua mãe, recebeu um arco. De suas súbditas, um cavalo [o cavalo]. De seu pai, um cinto. Um cinto de que não tinha necessidade e sentia, ao pegá-lo pela primeira vez, que traria, a si e às suas, apenas desgosto e morte.

Começa a sua educação. O cinto é guardado num armário e esquecido. O arco um prolongamento do seu corpo, o cavalo o lugar que a define. Mais do que mulher, objeto e animal, são uma trindade, una de propósito e mando. Hipólita?, arco e cavalo são Hipólita!; arco sem Hipólita? e sem cavalo não é um arco; cavalo sem Hipólita? e arco não se consubstancia; Hipólita? sem arco e sem cavalo é Hipólita? desprovida de si mesma. O cavalo pasta nos sempre verdes prados do reino, onde a erva cresce após cada dentada e se endireita após cada casco, pé ou roda a pisar; o arco consome cordas vindas das loiras searas de linho do reino; Hipólita? bebe ambrósia, condição herdada do pai, gotas, um pequeno cálice, se o dia foi longo. Observa o banquete das suas súbditas, todas elas companheiras, todas elas extraordinárias, todas elas completas, todas elas poderosas e absolutas na sua condição de guerreiras divinas; de mulheres. Sem paixão pela carne, pelo vinho, pelos cheiros ou pelo convívio, Hipólita? é rainha por inerência, é guerreira por inerência; Hipólita? é apenas Hipólita! com o arco e o cavalo.

As florestas sucumbem ao frenesim da produção de flechas. A forja não para. Felizmente o reino é mágico, uma dádiva de deuses ávidos de serem humanos, caso contrário não haveria árvore em pé, não haveria minério enterrado, não haveria linho nos campos, não haveria bicho emplumado à sua face.

Aponta, aponta, aponta; atira, atira, atira. Em pé, sentada, a cavalo; e neste: parada, a trote, a galope; para a frente, sobre a cabeça do animal, para a esquerda e para a direita, torcendo o tronco com rapidez, para trás, confiando à montada o trajeto. Não para. Nem para dormir. Puxa mais uma seta do cesto preso às costas; encaixa-a entre o arco e o indicador esquerdo; retesa a corda e… algo não bate certo. O movimento não é fluido. O incremento da tensão não é linear. Há um solavanco no final do movimento de tensão do arco. Hipólita? distrai-se. E o tiro sai impreciso, impuro. A sua génese não é perfeita, logo o seu trajeto nunca será o correto. A seta não encontra o centro do alvo distante, não trespassa o caroço do fruto pendurado, não se crava no coração do animal que moribundo e tomado de adrenalina, se some por entre arbustos, cerrados e montes ermos. Hipólita? lamenta a seta perdida nas fronteiras do alvo e nas silvas, chora o sofrimento do animal pelo seu fracasso.

Só, no seu quarto, em frente ao espelho, repete incessantemente o movimento. Truncada do cavalo, imagina-se sentada nele e tira uma seta do cesto, correto; descansa-a entre o anelar esquerdo e o entalhe do arco, correto; ergue o arco acima da cabeça com o braço esquerdo, apontando-o para cima, correto; inicia o movimento simultâneo de apontar e tencionar o arco… algo não está bem. Quase imediatamente se apercebe, e confirma-o desviando o olhar para o peito refletido no espelho. Para apontar corretamente ao alvo, deve alinhar o seu olhar e projeta-lo, ao longo da seta, para onde pretende que ela vá. Tal implica colocar o arco e seta praticamente em contacto com o tronco. O seu seio direito interrompe a fluidez do movimento de tenção do arco. Perturba o fluir da pontaria. Impede uma libertação linear da seta.

Procurou conforto na forma como Otréra e as outras guerreiras executavam primorosamente o tiro com arco. De forma que lhes seria seguramente natural, haviam compaginado a sua anatomia com a técnica. Mais do que isso, nunca terão reconhecido na sua anatomia um obstáculo e desenvolveram as suas capacidades ao limite do fisicamente possível. Não viam como um impedimento a voluptuosidade dos seus corpos; não tinham na anca pronunciada um óbice; não se sentiam diminuídas pelos seios que lhes adornavam o peito. Não pensavam sequer nisso. Eram atiradoras excelentes, guerreiras destemidas, mulheres plenas. Eram o alvo da sua admiração e respeito. Em Otréra via-as a todas e em todas via a nobreza de caráter e força que portava consigo. Era como se tivessem sido criadas pela imaginação de um ser que, imperfeito, desejava o absoluto em forma de mulher. Citius, Altius, Fortius. Toda a lucidez, nenhuma ignorância, toda a virtude, nenhuma falha, toda a força, nenhuma fraqueza. E tal desejo resultou em muito mais do que a necessidade que o formulou. Companheiras, protetoras, guerreiras, seres plurais e plenos, todas elas. A força e porte da leoa no corpo terno do gato, o poder destruidor do Nilo no gorgolejar tranquilo dum ribeiro, todo o esplendor do céu noturno num olhar límpido de mulher.

Então porque se sentia diminuída no seu excesso? Porque não ultrapassava o incómodo do seio? Assombrava~lhe os sonhos sentir que não era tão capaz como poderia ser, não fosse a sua anatomia. Dispersava~lhe a atenção dos seus deveres diários o contorno que parecia crescer e tomar ascendente em tudo que fazia. A comer, olhava para o prato e eles estavam lá; a cavalgar, os seios cavalgavam a um ritmo diferente do seu e do cavalo. Apoderava-se de si uma sensação de corpo estranho. Enfaixou-se, distanciou-se das companheiras, da mãe. Sob o pretexto, sempre bem-vindo entre as suas, rumou às montanhas para meditar e submeter-se aos rigores das altitudes, da fome e da solidão. Desceu, convicta que não seria Hipólita enquanto não tomasse uma atitude.

Numa manhã de sempre verão, amolou afincadamente a espada, banhou-se com leite e mel e vestiu uma leve túnica branca. Junto à banheira, tomou duas gotas de ambrósia, reservando o restante do pequeno frasco para depois; amarrou o cabelo em rabo-de-cavalo e, debruçando-se sobre a banheira, com um só golpe, de baixo para cima, cortou o seio esquerdo que se perdeu, inteiro, no mar leitoso que a enchia. Não gritou. Não porque não doesse. Doía, muito. Mas era finalmente Hipólita. Trémula, pegou no frasco de ambrósia e derramou-o sobre a ferida. A dor passou a mal-estar e daí a nada, a comichão. Uma fina pele rosada cobriu a ferida e logo se confundiu com a demais, como se nunca de outra forma fosse. Admirou-se, mutilada, ao espelho. Respirou fundo; era Hipólita.

<Continua se quiseres, vai estragar tudo>

Sentiu-se bem. Livre. Vestiu-se, armou-se e correu à estrebaria pelo cavalo. Cavalgou em direção ao local onde a sua mãe e companheiras treinavam, ansiosa de lhes mostrar como se tornaria na melhor guerreira de todos os tempos. Não fosse pela comichão que sentia onde ainda há pouco havia um seio, sentia-se no topo da mais alta montanha; na garupa do cavalo mais veloz; na ponta da seta mais certeira que havia ou haveria de lançar. Juntou-se às companheiras. Lutavam com espadas e lanças: assim fez. Depois, galopando nos seus cavalos, recuperavam do solo, ora com a lança, ora com a mão, peles de cabra cheias com estopa: assim fez. Seguidamente, lançaram pesados tridentes a alvos mais ou menos distantes, com forma de gente, feitos de galhos e de palha, adornados com velhos escudos e espadas de pau: assim fez. Por fim, alinharam-se para o tiro ao alvo: assim fez. e excedeu-se. Foi a mais certeira nos alvos, a mais rápida a esvaziar o cesto, sempre na mouche. Foi notável no tiro tenso; no tiro curvo a cinquenta, cem, cento e cinquenta metros; no tiro em movimento e; no tiro montado. As companheiras vibravam a cada seta rachada pela seguinte; Otréra, com o sorriso lavado por lágrimas, batia palmas a cada alvo que caía, ajoujado de setas, a cada cântaro quebrado e a cada boneco tombado à passagem de Hipólita, do arco e do cavalo. No final, todas a felicitaram. Hipólita que tinha deixado de sentir a comichão minutos após ter começado o treino, estava cansada e, como todas as outras, tinha as roupas, as armas e o corpo, sujos de lama, restos de vegetação e muito suor. Cavalgou num delírio plácido de volta ao palácio. Tratou do cavalo, limpou e guardou as armas e dirigiu-se ao seu quarto. Triunfante, feliz pela sua bravura, preparou o banho, desta feita com água fria. Em frente ao espelho, orgulhosa da sua coragem, despiu-se para se reencontrar perante um corpo perfeito, com dois seios perfeitos.

relvado com margaridas silvestres

Fuck’in eden

Duas canecas

Se ao menos me ouvisses