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(des)Assunção

Néon “Deve ser aqui”

Quando, com sete ou oito anos, de pé num dos primeiros bancos da igreja, ouvindo o padre e temendo os puxões de orelhas das velhas se olhássemos sequer para o lado, ou para cima quando tocava a sineta, imaginava a sorte que tinha em ser Português. Imensa a sorte pois que Jesus e os seus pais, Maria e José, eram Portugueses como eu e todos os que ali estamos. Nascidos em Portugal, com as suas vidas vividas no território Português, espalhados pelas suas belas províncias e pitorescas cidades.

Tão certo me encontrava dessa verdade que não pensava sequer em procurar no mapa a bem Portuguesa terra de Belém, pois que ouvia falar que tinha até um palácio, onde vivia um senhor Português que era frequentemente filmado a inaugurar qualquer coisa, cortando grossas fitas com uma tesoura brilhante que pousava depois, solenemente, numa almofada forrada a veludo, azul ou vermelho. Palácio este sem dúvida erguido para glória do filho de Deus que, sendo Português de nome, Jesus Emanuel, o seria igualmente de sangue. Tomava igual conforto em saber que também os Santos e tantas outras personagens bíblicas, José de Arimateia (Beira Alta?), a prima Isabel e os Apóstolos Pedro, Tiago e Tomé (Braga?), o profeta João Batista que batizou Jesus no rio Jordão (como o avançado do Sporting? africano mas Português), [O primeiro Homem e a primeira Mulher], no Jardim do Éden (Algarve, Madeira?), eram todos, mas todos, Portugueses dos sete costados.

Também as sagradas escrituras haviam sido escritas em Português e por mão Portuguesa. De que outra forma soariam tão bem como:

Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer: o homem que dormiu com a mulher, e esta da mesma forma. Assim, tirarás o mal do meio de ti.”

Escritas certamente por mão [e alma] Portuguesas. Tais palavras não poderiam soar tão naturais se fossem escritas em qualquer outra língua. Era como se cada página, cada versículo, cada personagem e sobretudo, cada visão de mundo, me cantassem ao ouvido o Portugal das beatas, dos machistas, da repressão disfarçada de respeito, da mais abjeta ignorância em trajes finos de humildade e bonomia.

Com sete ou oito anos, não sabia porque tinha tanta comichão com os professores que não me deixavam escrever com a mão esquerda; porque a única vez que a minha avó me bateu foi por, adoentado, não querer ir à missa; porque tremia a voz à minha mãe sempre que falava com o médico, ou com a funcionária do secretariado. Com sete ou oito anos, não saiba porque me fazia tanta comichão, nas tardes de ócio, não podermos sintonizar o rádio em onda curta, haver escolas segregadas e tantos meninos que esperavam que comesse a maçã para me pedirem o caroço.

Não perdurou em mim a ideia que Jesus e restante elenco do Livro, suas terras e reinos, historietas, pragas, castigo, morte e salvação, fizessem uma viagem em duas etapas para longe de Portugal: primeira paragem, terras de Israel, Palestina, Líbano e Síria e; segunda paragem, para a Terra do Nunca, para dentro do olhar límpido mas vazio do chimpanzé que na sua cama nas árvores, fita, sem compreender, as estrelas de que é feito.

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Renovação da página institucional da ESE de Paula Frassinetti

relvado com margaridas silvestres

Fuck’in eden