Imerso nas gentes que saem cada vez mais e cada vez mais confiantes às ruas da cidade, como caracóis que emergem dos recessos dos muros e das folhas de couve para sorverem a manhã húmida, sigo finalmente sozinho comigo mesmo. Faço o percurso mais ou menos habitual, porque nunca me habituo a nada que não seja velar o meu corpo prostrado no medo de existir, e noto as ruas meias desertas. Faltam às ruas e praças mais típicas, aqueles que, tendo vindo vê-las como elas eram, as transfiguraram e remeteram o intangível de ser daqui para parte incerta. Perdida no frémito babélico, o ser daqui, havia desaparecido das ruas. Diziam que para sempre, que a cidade se vendeu e se transformou numa caricatura de si mesma.
Mas eis que, levantadas as aves de arribação para as suas frias falésias e arejadas planícies, limpo o milho trangénico das esplanadas e das montras das lojas, fechadas as gaiolas de pássaros de boutique, a cidade foi devolvida a quem nela vive e trabalha. E voltam os vizinhos da Ribeira, os gunas do Bom Sucesso e os cenas da Banharia. Mas também os tolos da rua do Amparo e Sueca os Stars do Marquês. Conversa-se nas paragens de autocarro, estendem-se os pés nas carruagens do metro e, finalmente, deixo de ser abordado numa esplanada com um insípido, hello. Confortavelmente só, envolto pelo doce bulício de uma cidade de aldeãos, sinto-me outra vez em casa.
É a cidade do Porto em Português, carago! debolbida aos Portuenses, carago! O preço é que é o carago, carago.

