árvores mortas
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Sobre a história invisível

(no trono III)

Era meia-noite e tinha perdido o melhor de mim.
Doía-me ver-te olhar para mim como se eu já não existisse senão nas tuas memórias.
Nem o doce sorriso que esboçavas com a boca fechada sobre si mesma, límpido e irresistível, como no dia em que me encontraste distraído e verde, disfarçava a antecipação da partida.

Um mar de remorso me separa dos dias que ainda levo, que ainda sou, que ainda represento, se bem que com a resignação própria àqueles que escutam o crescer da sombra da montanha erodida que troa triunfante, lápide vivente, dos dias em que me achava capaz de algo.

Era meia-noite e via finalmente a luz ao fundo do meu coração.
Olhavas-me como sendo excepcional. Excepcional em quê? Na mediocridade da irreverência, no paço covarde de sempre me lançar para cima e nada alcançar senão o desespero.
Lembro do pavor de partir os tornozelos a cada degrau que descia. Por isso subia. Não porque fosse valente; não porque abraçasse o desafio por amor ao risco ou ao brilho; não porque me trouxesse a felicidade. Apenas porque o medo de subir era mil vezes suplantado pelo terror de descer.

Evito os espelhos porque são cruéis. Evito a crueldade que me devolvem. O espelho não é nunca um espelho. É a prova de que é tarde para deixar de ser cruel. É tarde para amar mais um como te amei.

Era meia-noite e jazia vivo. Não era aquele o meu corpo; maleitoso e lento. Não era aquela a minha mente; quase dormente ao sol dos lagartos; frenética em volta das candeias da noite.
Uma traça. Era já uma traça. De voo fugaz, inaudível e indistinto, até ao momento em que se perde, no marasmo da luz.

Nada resta de mim senão uma história invisível que ficou por contar.

Antílope

Porque sonhava

Selva

Contigo em todo o lado