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Por amor

Canhão do Lapedo

Ôma sente uma dor que conhece bem. Uma dor que todos naquele grupo familiar partilham, especialmente a mãe do seu companheiro e as pequenas irmãs e irmãos dele. Também ele está triste mas, ao contrário de Ôma, chora. Ôma olha o companheiro e gostaria de lhe perguntar porque correm dos seus olhos lágrimas em contínuo. Porque geme e bate com as mãos no peito e puxa os cabelos da cabeça. Não entende nem saberia como lhe perguntar.

É grande a diferença entre eles. Ela é mais pequena, mas muito mais forte que ele; que todos eles. Nunca se cansa, nunca sua e nunca percebe porque mostra ele os dentes e abre muito a boca quando a vê depois de uma caçada bem sucedida ou quando a vê levantar-se de entre o grupo de corpos adormecidos, quando ainda não raia o sol. Desde que foi levada da sua família, lá nas terras brancas, que se sente só. Quando o companheiro a levou do seu grupo e a mostrou, batendo no peito, à sua família, Ôma temeu pela vida. Fugiu, mas foi apanhada. Com fome e sem saber para onde ir, deixou-se ficar. As mulheres rosnavam-lhe se fazia algo de errado e levantavam os braços finos e arregalavam muito os olhos grandes. Com o tempo, percebeu que, entre tantas outras tarefas que conhecia e outras novas, lhe pediam que trincasse as peles, coisa que pouco lhe custava, mas que constituía algo doloroso para as outras mulheres.

Ôma não bate no peito, nem puxa os cabelos. Olha o pequeno corpo inerte do seu filho e pede-lhe baixinho que acorde. Invade-a uma grande melancolia que faz com que mantenha a criança no colo, para seu conforto e desespero dos demais. Dizem-lhe que é preciso enterrar o menino, mas ela não entende. Sabe que por ali há abutres, raposas e outros bichos que levariam o menino e que é preciso enterrá-lo. Mas surpreende-se quando uma das mulheres lhe afaga um gorro novo à cabecita e coloca um dos seus mais belos colares em volta do seu pescoço. O companheiro, que tinha já feito uma pequena cova mesmo ao lado donde usualmente cozinhavam e pernoitavam quando por ali passavam no deambular constante que era a sua vida, alisava-a agora com uma ramada seca de pinheiro silvestre. Por entre lágrimas e soluços, joga o ramada ao fogo e, quando esta já arde bem, pousa-a no fundo da cova e espera que nada reste senão as cinzas que aqueceram o chão frio da cova.

Ôma está atónita. Tudo o que vê é estranho. Lembra-se de participar nos enterramentos dos seus cujo olhar deixava de brilhar; uma cova rasa, flores e as peles apertadas, mas nada assim. Assim, como se o seu menino mantivesse o brilho nos olhos e apenas partisse para as terras brancas para não voltar. A custo, entrega-o ao companheiro que o poisa, com todo o cuidado, numa pequena pele de veado, revestida a uma pasta de ocre, trazida de longe. Está como quando o viam dormir entre as peles. Doce e calmo, deitado de lado, com as mãozitas entre as coxas. Antes mesmo de o envolver, um jovem caçador, mata, de um único golpe, o pequeno coelho que o menino trazia sempre consigo, na ponta de um entrançado de vide. Coloca o companheiro aos seus pés, enroscado como se também dormisse. Um último olhar de Ôma para o seu menino que dorme, enquanto o companheiro os aconchega na pele. Deposita-o com cuidado por cima das cinzas, com a cabeça voltada para o sol nascente. Saberá Ôma que dessa forma, acordará todos os dias com o afago do sol e o canto dos pássaros e se deitará quando o mesmo sol que o vigia, lhe tocar os pés para lhe aquecer o sono?

Cobrem o menino com terra e depois com pedras e flores silvestres. Deixam-lhe algumas bagas numa pequena taça feita de folhas entrançadas. O pequeno grupo pega nos seus haveres e segue, em silêncio, o curso da ribeira. Ôma e o companheiro permanecem, ela sentada, ele agachado, junto à sepultura. Já as sombras se alongam no canhão que se há-de chamar Lapedo quando, apesar da gravidez avançada, Ôma se levanta de um salto. Na sua face já quase não há sinal da dor que vivera. O companheiro, depois de enxugar a face ao cabelo crespo, olha Ôma com um misto intangível de surpresa, dor e felicidade.

Obrigado Ana Maria por nos contares o início desta história de amor e humanidade.

Foto: tilmagazine.pt

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