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Colour

Porto numa tarde de chuva

O casario recortava o céu argentino oxidado, a pedir pasta de dentes. E o recorte era de tal modo cristalino e afiado que parecia tratar-se de uma fotografia montada num editor de imagem digital, tal era a pureza da fronteira entre céu e casas, entre o que o homem deseja e o que o homem constrói, como se não nada houvesse por trás do mundo ou, o próprio mundo, não fosse mais do que o derradeiro cenário da existência. O fresco da manhã corria pela estrada longitudinal ao ponto de observação, vinda do nada, que era o fim da rua, para rematar no casario, de tal modo que dir-se-ia tratar-se do sopro de um deus indiferente que, casualmente, existia apenas no assobio, inaudível, de um refresco que liberta a nuca do calor opressivo de estar preso a uma janela. Tudo era vibrante e em alta definição; tudo era perfeição em vídeo 8K. Os sons corriam ao longe, frios e portadores de ténue sobressaltado. Pousada no topo da paragem do autocarro, como quem por ali passa sem esperar nada em troca, uma pega galreja o seu amor pelo par da sua vida, empoleirado numa árvore próxima. A parelha tagarela por longos minutos recados que só eles conhecem e só eles dão sentido.

Pintada a todo o comprimento da paragem, ela observa, deitada e plácida, com uma flor de todo o azul na mão direita, a pega com a paixão de quem, por amor, vê o arco-íris no maniqueista animal. Está muito calma e vai abrindo e fechando os olhos, coisa muito rara numa pintura. Absorta, pela pega que a adormece, pensa em como a cidade seria mais feliz se houvesse mais pegas que pessoas, mais parlas que falas, mais amor para a vida que encontros fugazes em paragens de autocarro. Na cidade imaginada das pegas e dos deuses que nada mais são que ruas sopradas em direção a casarios recortados em argentino oxidado, ela, sem ninguém para a julgar, seria livre para abrir e fechar os olhos e beijar a flor que um amante desconhecido lhe deixou, vestígio perene de uma noite de transgressão pictórica.

Canhão do Lapedo

Por amor