Mulher com cabelo esvoaçante
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Pelas Marias

Maria Arnaldina vivia no que resultou de uma loja adaptada a habitação de uma vivenda revestida a azulejo. Deixou-lha a mãe que a obteve por graça de longos anos de trabalho quase escravo para os já falecidos donos da vivenda revestida a azulejo. O patrão da mãe de Maria Adosinda, último do casal a falecer, em estertor e de consciência pesada, lavrou que a dita empregada de lavoura e cálice para todo o pau, haveria de viver onde sempre vivera e aprouvera ao dono da vivenda revestida a azulejo. Mais lavrou que igual proveito gozaria Maria Alzira e, no leito de morte, ele, agonizando por coice de vaca, ela já fria por se arreliar tanto ao ver o coração do marido assim exposto por via da patada, fez o seu único filho jurar respeitar a promulgada decisão.

Tínhamos então: Maria Adelina na loja convertida e Bento, por cima, partilhando a vivenda revestida a azulejo. Apesar do falatório da aldeia inerente à sobreposição das habitações, proximidade das idades e estado civil, muito os separava. Para lá da placa de cimento feita sobre os ossos de uma anterior estrutura de madeiros robustos, separava-os género e muito mais. Maria Adélia era uma mulher fresca e arranjada; vivinha de cores que disfarçava com maquilhagem e cheiinha de carnes que entalava com cintas e roupas às listas que desviavam o olhar da barriga para o decote generoso. Usava carteira, brincos e saltos a condizer, um desafio na aquela aldeia velha de casas e de gentes, pelas ruas gastas e línguas marotas que a desafiavam a cada passo. Na jaula que era a aldeia, Maria Inácia era um pássaro livre. Já Bento era um bruto. Embora fosse, de longe, o homem mais rico da aldeia, a morte chocante e prematura dos pais deixou-o um pouco mole do côco. Não que fosse lerdo; cuidava dos bens e negócios que o pai lhe deixou e, tirando matar a vaca a tiro de caçadeira ali, onde pastava mansamente, não se lhe conheceu outro desmando, antes ou depois desse. E até se lho poderia achar compreensível, quilhar a vaca que, duma assentada lhe mandou mãe e pai para o céu dos terratenentes ou para a Venezuela mítica dos defuntos, o que mais aprouver a cada um. No entanto, parece que algo lhe ficou a faltar; e higiene ficou a faltar muito. Apenas se barbeava lá pelo dia do seu nome e não penteava o cabelo senão com um puxar para trás com os dedos em engaço; bochechava a boca com bagaço de vinho verde para o mau hálito e engolia o caldo que ali se formava, lavava-se raramente e, quando finalmente decidia trocar de roupa, esta já não se conseguia lavar e nem para cama de animais servia, tendo como destino o lume. Ardia por muito tempo, sempre com uma chama azul e tinha de ser queimada fora da aldeia porque o cheio até aos bodes incomodava.

Certo dia, Maria Ernestina, caminhando titubeante nos saltos pelas ruas tortas da aldeia, ao chegar à vivenda revestida a azulejo, topou com um paralelo esquinado, caiu e fez uma entorse medonha. Disseram as velhas que foi castigo; putas! Sentada no chão, ladeada por duas velhas que a chagavam pelos saltos, sem conter as lágrimas, não pelas velhas mas porque quem já fez entorses sabe que doem que se fartam, aguardou a chegada dos bombeiros. Posta em casa, depois de uma passagem breve pelo Centro de Saúde, na sua poltrona e com uma perna ao alto, remoía na prescrição do médico que mais lhe parecia um dos garotos da escola de turismo que por lá costumavam passear aos fins-de-semana. “Descanso absoluto e… PÉ AO ALTO”. O nosso pé está com Deus, rematava sempre, acompanho de um sorriso. Sorriso de pouca dura, já que logo se lembrava que era uma mulher sozinha, com afazeres e necessidade de suprir às suas imposições diárias como, comprar comida, ir à missa, soltar o cão para que não lhe mijasse em casa, fazer uma compra ocasional, ir na carreira à cidade e passear-se pelo centro comercial. E quando se lembrou que haveria de ter de se levantar daquele sofá para se deitar ou ir à casa de banho, desesperou. As velhas, cheias de boa vontade e compaixão ou tão somente para lhe lembrarem o sacrílico vicio dos saltos, ajudavam no que podiam; chegando uma sopinha, ajeitando as almofadas, dando um jeito bom à casa; não que precisasse, que Maria Josefina era asseada, mas assim já tinham que contar na mercearia. O grande problema chegou quando tentaram, de balde, diga-se, levantar Maria Cristina. As pobres bem gemiam e recrutavam os santos; mas por os gemidos serem fracos e Maria Justina ter que se levantar e não descer, os santos recrutas também não ajudavam. “Chama-se o Bento”, disse uma. “Nem pensar! Esse monstro; não o quero cá em baixo, nem perto de mim”, disse Maria Genoveva agastada e já meia enjoada apenas por imaginar o cheio do Bento invadir-lhe as narinas. Dada a inefetividade de velhas e Santos, Maria Balbina teve de colocar o pé no chão e tratar das suas necessidades. De passo, trocou de roupa e lavou os dentes. Foi direta para a cama. Sentir-se-ia realizada e quase resignada àquela situação, não fossem as fortíssimas dores no tornozelo e o aumento do inchaço. “PÉ AO ALTO”, lembrava o menino médico. Tomada pela noite que entretanto chegou, sentiu-se frágil e adormeceu a chorar.

Na manhã seguinte, estremunhou com o abrir da porta de casa. A medo, perguntou se era a Mirinha, velha desprezível, mas, que escolha tinha agora. A resposta, um não rotundo, gelou-lhe o sangue. “Desaparece, Bento. Vais deixar-me a casa imunda”. Perante a recusa de Bento em sair, Maria Ermelinda enfiou o nariz no lençol, antecipando a agonia do mau cheiro, do sebo e da boçalidade da figura que haveria de lhe entrar pelo quarto. As lágrimas rolavam pela face rosada. Toda ela tremia e temia a pesada figura masculina que estava prestes a penetrar a sua intimidade. Toda ela enjoava por antecipação perante o cheio do homem. Toda ela começava a estranhar como o bicho que se contorcia nas suas entranhas se transforma em borboleta que esvoaça por cima do seu ventre, mesmo em frente à porta do quarto. E de como o leve bater de asas a remexe por dentro, lhe trás sensações que nunca havia experimentado, lhe comprime e distende a vulva pueril. Ele entreabre a porta e, meia cabaça dentro, a olhar para a janela para evitar o contacto visual, pergunta se pode entrar. Maria Gabriela, ao vê-lo limpo, penteado e barbeado, deixou, por entre lábios, escapar um Bento orgástico.

Casaram dez meses depois, no dia de Nossa Senhora com as ruas cobertas de flores. Maria Crisálida de branco e laranjeira, Bento Amoreira aperaltado de preto.

villain / vilão

Pelas Marias

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Sobre ser pobre e ser livre