Urso de pelúcia
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O Urso de Pelúcia

Lembro-me dos dias em que era um urso. Um urso de pelúcia que gostava do nome José. Não recordo o que era antes, o que fui depois ou o que sou agora. É irrelevante para a história que vou contar. Importa que, naquele tempo, era um urso de pelúcia numa loja de brinquedos. Era forrado a estopa, de pêlo castanho e fofo, tinha o nariz, as patas e as orelhas bordadas a linha preta e as orelhas arrebitadas. Seria urso como os outros, vendável e amável como os meus irmãos, não fosse a dissonante nota da costura da minha boca. Estou a adiantar-me, já vós conto. Importa, para já, dizer que a boca, a costura da minha boca, ficou de tal forma que, olhando-me fundo nos olhos de vidro, as linhas feitas boca de boneco, revelavam-se em negríssima fauce, terror dos vivos, estarrecer da razão, juiz dos danados.

Foi completamente casual a forma como me tornei urso de pelúcia. Passava por aquela fábrica, para sentir a azafama do natal, quando me deparei com a boca inacabada de um boneco de pelúcia. Porque não sentir, ainda que por momentos, como é a vida pelos olhos de um boneco? Pensei. Como nos amam, como nos trocam por um coelho ou uma boneca de trapo no tempo de um só suspiro? Como perversamente nos adoram ao ponto de nos tocarem com luvas de pelica e nos colocarem numa vitrina, longe do que somos. Como nos pedem para estar sempre do seu lado, jogando de dia, velando de noite. Como acabamos numa arca de brinquedos e depois num saco na garagem para, anos mais tarde, sermos reencontrados, lavados e passados de geração. Para sentir tudo isso ou apenas sentir-me mais que éter, entrei e fiquei por lá a olhar. Perdi-me com estes e outros pensamentos de ser boneco e ser, ao mesmo tempo muito mais, quando dei por mim costurado ao pêlo. Ainda tentei furar, rasgar os pontos, mas a operária fechava já a costura da boca; o último remate. Puxei e repuxei. Arreganhei e repuxei o focinho do cárcere sem êxito. Estava preso. Por momentos, é certo. Só não sabia quão longos seriam ou sequer se estes momentos teriam fim. Por fora, um ursinho de pelúcia, por dentro um prisioneiro descontente. Numa linha de produção, entre irmãos inocentes, senti o meu âmago apodrecer. Um feroz desejo de vingança cresceu rapidamente na proporção da certeza do meu destino. E não havia mais nada que pudesse fazer senão arreganhar a costura da boca que me prendia. E olhar o mundo pelos olhos de vidro do boneco. Os seus olhos seriam os meus olhos. Perguntais: porque não foi tamanho ódio imediatamente destruído à saída da linha de produção? Porque não se lhe estraçalhou o frágil corpo de pelúcia na máquina de estraçalhar frágeis corpos de pelúcia? Porque, respondo-vos eu, o funcionário responsável pelo controlo de qualidade, ao inspeccionar a simetria do meu focinho, tornou-se a minha primeira vitima. Arregalou muito os olhos, balbuciou em silêncio para logo cair para o lado, em desespero. Torceu e contorceu o corpo, vazou os pulmões a gritos de dor, arranhou a pele da face como que querendo retirar uma máscara incómoda. Por azar, para mim e para uns tantos mais lá para a frente, caí para a caixa dos aprovados e segui com o resto da encomenda. E então, e agora sois vós de novo, porque não foste descartado ou devolvido quando, chegada a encomenda à loja, foram abertas as caixas? Não sei bem, respondo eu. Talvez tenha sido a pressa. Estávamos perto do Natal e aquela encomenda era a última a chegar. Os ursinhos, sabeis, são muito requisitados pelos meninos e meninas pela maré do natal. Pedem os rapazes: carros; motos; bonecos de acção; jogos de tabuleiro; pistas de carros e comboios; e ursos. Já as meninas: bonecas; grandes ou daquelas parecendo-se com recém-nascidos; casinhas; carrinhos para empurrar as bonecas; jogos de cozinha e de engomar em miniatura, e ainda dizem que as educam de forma igual; e ursos. Pela lista apresentada e apreendida pela analise de muitos natais, podereis constatar da dupla demanda por ursos de pelúcia. Estava então traçado o meu destino, a encomenda era apreciada e tardia, dois factores contribuintes para uma rápida e pouco escrupulosa reposição de prateleiras. E acho que foi mais ou menos assim: pegaram numa manadinha de nós e atiram-nos para uma prateleira. Alma alguma teve o infortúnio de me encarar e no meu olhar se danar.

Antes que pergunteis como sei disso dos muitos natais, cá vou avançando sem nada dizer. Lembro apenas que aquele foi o primeiro natal do ursinho e foi mau. Se outros poderiam ou não ser piores ainda, nada sei. Não os tive mais. Sobramos muitos brinquedos. A aposta natalícia daquele ano foi arrebatadora. Um fulano, ou um grupo deles, lembrou-se de fazer uma caixa que ligada ao televisor permitia que um ou dois miúdos, não mais, os outros assistiam, ficassem nela de nariz colados, rechaçando um pequeno quadrado branco de um lado para o outro do écran. Ora, essa engenhoca vendeu mais que o peru e bacalhau juntos, deixando-me a mim e aos meus irmãos, aos carrinhos e às bonecas, a empoeirar nas prateleiras. Não sei bem se por falta de paciência, se por mentalidade especulativa ou se por simples desejo de se livrarem do excedente, todos os brinquedos foram rematados em lote. Todos menos os ursos que por serem, como referi, artigo procurado, tiveram destino menos diminuidor da condição de brinquedo natalício. Fomos re-embalados, em caixas de dúzia, e distribuídos por várias lojas de brinquedos, vendidos a preço reduzido. O que nos leva à minha segunda vítima: o dono da loja onde me expuseram. A loja era um daqueles bazares à moda antiga, de porta e montra únicas, dando ideia de recanto minúsculo, mas que, vencida a estreita passagem para o seu interior, a loja se prolongava para lá dos sonhos de qualquer criança. Um corredor sem fim, ladeado por balcões, e atras deles, prateleiras até ao tecto repletas de brinquedos. Tantos brinquedos! E tão variados, disse no tempo em que fui menino e me perdia naquele carrossel de promessas e intangíveis. Hoje apenas consigo ver o tabuado antigo do soalho por entre a fresta do fundo da caixa e nada sinto senão angustia e ódio. O dono da loja abriu a caixa. Pegou em quatro dos meus irmãos e colocou-os numa prateleira sobranceira ao primeiro balcão de atendimento. Ao vê-los tão fofos, a sua filha sugeriu que colocasse um quinto na montra, no pequeno pedestal ao centro, de modo a que todos os passantes e sobretudo as crianças a caminho da escola vizinha pudessem ver que tinham para venda tão carinhosos ursinhos de pelúcia. Má hora para o dono cuja mão traidora me retirou da caixa. Inspeccionou-me de alto a baixo, porque só a perfeição figurava na montra. Verificou a simetria das pernas e dos braços, a consistência da estopa que tinha por entranhas, se havia pêlo rebelde, se a cauda era redondita, se as orelhas estavam bem arrebitadas, se os olhos estavam alinhados e brilhavam… E como brilhavam, tanta era a minha frustração. Agarrou-me com as mãos e tremeu. Arregalou os olhos e mordeu o lábio e sangrou. Assustou-se deixando-me cair e gritou. De joelhos, ganiu. Arrojou as mãos ao alto e despejou-as contra o peito. Uma e outra vez, como os árabes que se mortificam quando alguém próximo morre. Por fim encolheu-se muito e deixou-se cair nos braços da filha que tarde o acudiu. Logo o pandemónio: 112, médicos e paramédicos, filha confusa, esposa atónita e depois inconsolável, inspector de seguros e polícia criminal, irmão que vem fechar tudo e depois tudo acalma. Volta a filha, passadas duas semanas, para limpar e arrumar. Há que abrir a loja. A vida, afinal, não parou. Nunca pára. Limpou e arrumou. Percebi que estava sofrida e que a tristeza das memórias do seu pai ainda lhe pesavam na alma. Foi com os olhos vidrados de lágrimas que me varreu de debaixo de um balcão. Foi de olhar perdido nos recantos da loja onde cresceu que me limpou. Foi ceguinha de dor que me levou para a montra e me colocou no pedestalzinho central. Pais assim já não há. Atendei no que vos digo.

Este gesto, de me colocar na montra, fatal ainda em fase inicial de intenção, tendo em comum a bondade de outras tantas intenções, torna-se-ia, com a sua concretização, e como tantas outras, um verdadeiro genocídio. Destacado na montra, olhos nos olhos dos que passavam e paravam, matei. Sobretudo crianças. A torto e a direito. Eram os pequenitos que, olhos esbugalhados, encostavam o nariz à montra e se danavam. Um ou outro que não gostava de ursos ou que se fixava na pista de comboios, na boneca que faz xixi e canta, no carrinho telecomandado ou em qualquer outro brinquedo que se situasse nos arrabaldes da montra, lá escapava. Mas eram poucos. Normalmente, e falo daquela primeira manhã, eles abeiravam-se, a caminho da escola, davam a volta à montra com os olhitos e, se os fixassem nos meus antes das mães os puxarem por um bracito, salvando-lhes a vida, ficavam por ali. Caiam gritando, como se lhes mordesse um cão ou abelhas os picassem nos braços, nas pernas e na cara. Algumas mães, achando ser fita, puxavam-nos de repente, mas logo se apercebiam que tanta dor não era ardil. Gritavam com eles, agarravam-nos, tentando, em vão, prendê-los à vida. Penteavam-lhes a repa, como que preparando os garotos para o encontro com o criador. Crescia a sua dor no inverso da dor dos meninos e das meninas. Gritavam eles, estarreciam elas, calavam-se eles, choravam elas. Choravam de cara voltada para o céu e pediam ajuda a qualquer. Aconteceu uma e duas e três e quatro vezes. Morreu depois uma senhora, sangrando das vistas, com as roupas rasgadas, o peito exposto e todo arranhado pelas próprias unhas. Finou-se um homem, não por me encarar mas, levado pelo desespero de ver o filho moribundo, correu com ele nos braços, rua adentro, para ser colhido por um carro que passava. 112, médicos, paramédicos, polícia. Em plena confusão, um polícia olhou a montra e, gritando, tirou a pistola do coldre, apontou-a à têmpora e disparou. Desconcertada, a filha do dono da loja, incapaz de aguentar o horror do que passava em frente à loja, com a morte trágica do pai a assombrar-lhe o pensamento, cortou o pescoço com um xyisacto, caindo no meio da loja aspergindo, a golfadas de sangue, cada vez menores, os brinquedos que tinha à sua volta. O pânico era de tal ordem que a área foi isolada, julgando haver ali fuga de gás ou atentado terrorista. Várias pessoas, equipadas com fatos estanques, infiltram-se no perímetro estabelecido para, primeiro retirar os cadáveres e depois efectuar medições ao ar. Tudo limpo. E radiação? Perguntam uns aos outros. Radiação não faz isto. Mesmo assim, nada. A dada altura, um dos homens encarapuçados, caiu de joelhos berrando. Ainda pediu ajuda ao colega, suplicando com as mãos estendidas para ele. De nada adiantou pois o seu colega, em pânico, correu para longe do desgraçado que se contorcia. Já ninguém se aproximava da loja. Ficaram, cá fora, o corpo do homem e, lá dentro, o corpo exangue da filha do dono da loja, numa poça de sangue que o soalho velho reclamava. Horas mais tarde, enviaram um robô para os arrastar para longe da área de perigo. Ninguém sabia o que fazer. Percebia isso mesmo do meu pedestalzinho. Estavam aterrorizados, incrédulos, nulos. Trouxeram máquinas, muitas máquinas. Ouvia-os dizer que o ar estava limpo, não havendo fuga de gás ou qualquer agente patológico aéreo. O vidro da montra também não apresentava patogénicos de absorção cutânea. Um agente recebeu um telefonema da medicina legal e transmitiu que nenhum cadáver tinha ferimentos de balas ou picadas de agulhas. Também relatou aos colegas que não apresentavam sinais de envenenamento ou traumatismo. Estavam saudáveis.

Quando já não sabiam o que mandar, deixaram de mandar coisas. Mandaram um soldado treinado. Um pai babado de a menina de quatro anos. Tolice, tolice. Bastou-lhe abeirar-se da montra e os seus instintos de pai sobrepuseram-se ao de máquina de combate e guiaram-lhe os olhos para os meus. Horror. Caiu em agonia e danação. Os de lá perdiam a razão. Os camaradas tentavam correr para ele, impedidos por outros agentes de o fazer. Gritavam de lá, berravam-lhe o nome. O seu comandante dava ordem de retirada e, num acto de irreflectida bravura, correu para ele, colocou-o às costas, como se de um caído em combate se tratasse e regressou à tenda com o seu homem. Tivesses tu olhado para mim. Depois do incidente, assim o descreveram, com o soldado, nada nem ninguém se aproximou da montra. Passaram-se os dias, dois, três. E como nada mudasse, recusando a impotência, decidiram entrar pelas traseiras da loja. Ouvi um vidro quebrar, lá no fundo, no armazém. Ouvi passos lentos, ponderados, como se cada um que se dava fosse o último a ser dado, aproximando-se de mim. Senti depois o arfar nervoso de um homem e vi o tapa-fogo da sua espingarda por cima da minha cabeça. Esteve lá uns quinze minutos. Quando achou seguro, dirigiu-se à porta, abriu-a e correu dali para fora. São espertos, já descobriram que o interior da loja é inofensivo. Vencida a barreira do primeiro a entrar, é uma romaria dentro da loja. Entram e saem pelo postigo das traseiras. Levam aparelhos que instalam e deixam a funcionar autonomamente. Procuram outra coisa e não me parece que seja algo que se procure todos os dias. Também, não é todos os dias que se mata desta maneira. Ao que parece são espertos. Serão espertos o suficiente, ou suficientemente macabros, para pensar que é o urso de pelúcia que os está a matar a todos?

Passou uma semana. O mundo quer voltar ao normal mas não pode. Via que a notícia já se tinha internacionalizado. Passavam ao longe, leitores nervosos de jornais ainda mais nervosos. Bombásticos, contavam como foi e como não foi, amedrontavam e atazanavam o mórbido de cada um e ajudavam a manter aberta a ferida dos familiares daqueles que morreram. Dissertavam também sobre como progrediam as investigações, que se tinha avançado neste domínio, que estava tudo seguro e não havia razão para alarme, apesar de, asseguro-vos eu, não terem progredido quase nada. Certa noite, um dos técnicos encarregue de monitorizar as muitas máquinas, teve de trocar um dos aparelhos junto à montra. Coisas de baterias. Entrou na loja pela entrada improvisada nas traseiras, abrindo caminho a golpes de lanterna. Feita a troca, julgando-se seguro, apontou a lanterna à montra. Fatal. A montra iluminada reflectiu-se no vidro, opaco pela noite da rua, e os seus olhos reflectiram-se nos meus olhos. Danou-se como os outros. Ao desespero do costume, juntou-se um pouco de razão. Alguns dos que estavam cá fora, puderam observar, desde o início, a morte do colega. O horror de mais uma morte deu novamente lugar à vontade de saber porquê, procurando-se desta forma, conforto e reparação para o irreparável. O vídeo documentava sem equívocos. Morreu quando viu algo na montra. Estavam perto. Um mais esperto, ou felizardo, que os outros percebeu que era um dos brinquedos que matava as pessoas. Aleluia! Pela manhã, ainda se riam do inspector que dizia tratar-se de um dos brinquedos expostos, a fonte de toda esta desgraça. Um brinquedo. Estás doido. Diziam eles. Então, diz-me tu o que é, retorquia o inspector. Calavam-se quando os confrontava desta forma. Teria de ser alguma coisa. Se não era mais nada, talvez, talvez fosse um brinquedo demoníaco. O responsável pela operação, já era uma operação, deu o seu ok. Não sem antes lhe dizer que era a sua reputação, e outras partes mais privadas, que estava em jogo. Que agisse com cautela e sobretudo, que não matasse ninguém na procura desse brinquedo demoníaco.

Demoníaco, eu? Porquê? Acho que nunca fui demónio, não sei o que isso é, nem sequer se existem. Ouço-os agora falarem de mim, do demónio, com horror e repulsa. Que lhes fiz eu, comparado com o que fizeram? Que sabem eles do meu sofrimento? Um ser sempre livre, preso nas entranhas de estopa de um urso de pelúcia. Quero voltar a ser livre. Não importa o que tiver de fazer. Quero voltar a ser livre. Não aceito que me julguem ou que façam de mim o espelho do seu horror pessoal. Quero voltar a ser livre. Deviam ajudar-me a sair desta estopa que me enfarta, cortar a costura que me sujeita. Quero sair daqui! Não me ouvem? Quero voltar a ser livre. Prestem atenção. Olhem para mim e salvem-me.

Ok. Era a vez da tese do brinquedo. Já tinham eliminado a química, a bacteriológica, a radioactiva, a sónica, a sei lá eu que lhes perdi a conta às teses e aos testes que fizeram. Depois da morte do técnico, não correram mais riscos estúpidos; palavras do inspector. Entabuaram a montra e o postigo das traseiras para evitar mais mortes. Abandonaram as máquinas, deixando exaurir as baterias. Apagaram as luzes e recolheram. Por sorte minha e para benefício da história, o tabuado foi mal aplicado, ficando uma fresta aberta mesmo à minha frente que me permitia ver a tenda das operações, já ia em operações. Tinham imensas fotos da montra, da loja e da rua, de vários ângulos e em diferentes condições de luz. Teriam de servir. Observaram as fotos atentamente, sem receios, pois logo de início, antes da tese do brinquedo, já as tinham observado sem que qualquer incidente tivesse ocorrido. Este agora era um caso de polícia. E polícia era com o inspector. Se estava ali fechado, como, perguntais vós, é que sei como o inspector terá conduzido o seu trabalho, a sua investigação? Pois era isso do que se tratava agora: uma investigação. Simplesmente, imagino. E imagino que começará por observar a disposição dos brinquedos. Seguidamente, questionará os familiares das vítimas. Confirmará que foram crianças as primeiras a ser mortas e, sem esforço, relacionará isto com a estatura delas. Descartará também de forma liminar o suicídio da filha do dono da loja após conversa com o seu irmão que lhe dirá que presenciar a morte do pai foi um rude golpe para a sua frágil compostura mental; que havia tentado suicidar-se anos antes, por conta de um amor de verão. Falará com os camaradas do soldado e saberá, por produtiva informalidade de um deles e sorte sua se for para tal relacionamento capaz, que o coitado deixara mulher e filha pequena. Por fim, e para isto terá de pensar mais um bocado, que o técnico olhou para o brinquedo de forma indirecta, ou seja, viu o brinquedo reflectido no vidro da montra, numa rua abandonada pela vida citadina e a meio de uma noite escura. Munido destes factos e outros a que só ele terá chegado, olha as tábuas que tapam a montra e não a mim. Não lhe vejo o branco luminoso dos seus olhos e ele não vê o brilho dos meus. Empate técnico. Está dizendo a um colega, vejo-lhe os gestos, que é um dos brinquedos colocados no chão da montra, um dos mais destacados, um daqueles que os putos, ao passarem, davam de tope. Um brinquedo popular e que quase todos gostem. Pois é. Vejo que lhe bateu. Chama um colega que lhe traz uma foto ampliada da montra. Ainda consigo ver que aponta repetidamente para um brinquedo. Depois, retiram todos para dentro da tenda. É o silêncio total até à noite.

Perguntais como sei de todos os passos que foram dados no decurso desta história. Sobretudo estando eu preso num urso de pelúcia, perdão, sendo eu um urso de pelúcia. Como descortinava eu os pensamentos e acções do inspector, as notícias dos jornais, o que estariam, neste instante, a conspirar dentro da tenda sobre a melhor forma de me destruir e outros mais que não recordo agora, mas que seguramente não deixareis passar sem reparo. É simples. E não é por ser clarividente ou dotado de inteligência superior. É que a história é minha, lembram-se? Passei por ela e a ela sobrevivi. E pude acrescentar à traumática experiência a analise ponderada da documentação produzida nos anos que se seguiram ao episódio. Pois é, ficou conhecido como o episódio do urso de peluche, classificado de paranormal e arquivado como não resolvido por imperiosa destruição de todas as provas. Toscos! Avante. Na tenda, o inspector disse que apostava a carreira em como o brinquedo demoníaco, era o urso; eu. Finalmente! Concordaram, a bem da segurança, em destruir todos os brinquedos. Discutiam então qual a melhor forma de os destruir. O inspector sabia que era o urso, mas à cautela, pagariam todos. Os militares foram directos para a solução do puto com um sapo numa mão e um maço de cigarros na outra e propuseram estourar com a montra, com a loja, com o prédio e com a rua de maneira a não deixar nem roda, nem perna, nem olho, nem bola, nem pêlo sobre roda, perna, olho, bola e pêlo. Até já tinham um voluntário para montar o explosivo maior debaixo da montra. Ao que vim a saber mais tarde, o voluntário era o amante da esposa do soldado morto que, muito traumatizado com a morte do camarada que traíra, não via incómodo em fazer da viúva do soldado, uma dupla viúva. Rapidamente o inspector os alertou para o facto de, apesar de ser uma óptima ideia, veja-se o que se tem de dizer para não melindrar os rapazes das bombas, digna do exército, a opinião pública veria com desagrado que se rebentasse com meio quarteirão bicentenário. Recuaram, mas não retiraram, tecendo justificadas críticas à forma de pensar pouco esclarecida dos civis. De volta à realidade, o inspector delineou os seguintes objectivos: primeiro – todos os brinquedos devem ser destruídos um por um, de preferencia por incineração; segundo – de modo algum poderá a recolha dos brinquedos ser uma missão suicida; terceiro – devem ser causados o menor número de danos ao edifício, à rua e às pessoas que por lá passem. Com isto os militares retiraram. Um ainda propôs chegar-se aos brinquedos com um lança-chamas e era uma limpeza. O inspector apontou o laser da sua esferográfica ao ponto número três do PowerPoint e contornou-o repetidamente. Lá para a décima volta ouviu-se um ah, e foi o fim da coisa. Conto agora como se passou. Tiraram as tábuas que tapavam a montra para que uma câmara preparada para captar imagens na escuridão pudesse captar os movimentos do homem que iria a seguir fazer a recolha, abriu-se a porta da frente que seria a serventia da casa, por último, ligou-se a fornalha transportável que o exército cedeu e onde seriam destruídos os brinquedos, narrador incluído. Noite escura, reaberto o postigo das traseiras, para o caso de ser necessário, um homem entrou pela porta da frente às apalpadelas, tacteando paredes e balcões. Vinha às cegas. Sem qualquer equipamento protector senão um gorro preto e, em reforço, um capacete integral com a viseira enegrecida e câmara de vídeo. À cintura um radio e deste, um auricular ao ouvido. Na tenda de comando, visionando a montra através do monitor, o inspector ia transmitindo ao colega a posição de cada um dos brinquedos. Um a um todos seriamos recolhidos. A destreza, mas não a celeridade com que o fariam, deixou antever que o tinham treinado antes, com os mesmos brinquedos, numa montra idêntica. Se seguiam devagar seria porque a prudência o obrigaria. Até fizeram um simulacro. Corria tudo bem até o recolector me ter derrubado do pedestalzinho com a ponta pendente do comboio eléctrico cuja linha me cercava, deixando-me de focinho voltado para cima, mesmo a jeito. Estou a imaginar o sobressalto geral. O peluche caiu, diziam uns para os outros. Nada de pânicos, anunciava o inspector. Treinamos isto dezenas de vezes. Procura acalmar o colega que, face ao desenrolar da situação, suava por debaixo do capacete e do gorro. Quietinho que nem um cão amedrontado, de rabo entre as pernas, ouviu o inspector dizer-lhe que continuasse a recolher os brinquedos na ordem pré-definida. Logo tratariam de recolher o boneco caído. Assim o fez, confortado pelo facto de saber que enquanto estivesse cego estaria salvo. Desta nova posição vejo, sem obstáculos, o progresso do polícia. Ouve, via radio, o nome do brinquedo a recolher e qual a sua posição na montra. Ilustrando: jogo de água portátil, terceira prateleira da direita, segunda posição. Tacteia o início de cada prateleira e, muito suavemente, aproxima a ponta dos dedos do jogo. Segura-o e recolhe-o, fazendo o trajecto inverso, até um saco que trás preso à cintura. Pára, reporta o sucesso da recolha, espera por confirmação de que não houve quedas ou deslocações involuntárias de outros brinquedos, acata nova instrução, respira fundo e repete a acção. A recolha tornou-se monótona. Não para o polícia, que seguia suando e suspirando de cada vez que colocava um brinquedo no saco, mas para mim, que via um e outro serem despachados, e eu aqui. Se ao menos fossem carneiros. Ora, finalmente acabou. Estava exausto e claramente lhe era difícil continuar. Foi porém a contragosto, essas coisa da honra e de ser muito macho e assim, que aceitou ser substituído. Tomou o seu lugar, à falta de voluntários, o inspector. Então és tu que me vens salvar. Pois bem, salva-me.

A câmara montada para acompanhamento da recolha dos brinquedos era agora inútil. O urso de pelúcia, eu, estava fora do seu campo de visão. O saco negro com os brinquedos já estava cá fora, trazido pela porta da frente. Pude ouvir ao longe o polícia responsável pela recolha, telefonar à sua mulher, descansando-a e aliviando-se perante ela do que foi até aí, e seria de certo para a frente, o ponto alto da sua carreira. Distraído com a conversa do polícia, nem dei conta das mãos do inspector tacteando o fundo da montra , para cá e para lá, à minha procura. Cedendo ao nervoso, deixou-se cair para a frente e, com uma das mãos, empurrou-me. Azar, o dele, mas talvez mais, o meu. Caí para um canto, mesmo por baixo de um holofote, ficando apenas à vista, uma orelha e um olho. O inspector tacteou e tacteou, apalpou e apalpou. Raspou com o cutelo da mão numa aresta mais viva de um perfil metálico e cortou-se profundamente. Felizardo. Como não era de desistir, omitiu o sucedido e continuou a procurar. Repassou todo o fundo da montra, deixando um rastro de sangue no caminho da mão direita. Deixou sangue no pedestalzinho, nas primeiras prateleiras, um pouco por todo o fundo da montra, nos holofotes dos cantos. Sobretudo sobre o direito, que usou como apoio para a mão direita para, com a esquerda, tactear a frente da montra, junto ao vidro. O sangue escorreu pelo holofote para o meu focinho. Perfeito. Se já era um demónio, enfim me pareço com um. Por fim, incapaz de me achar, disse aos colegas que havia sido uma honra trabalhar com eles e mais essas baboseiras de brio e de dever. Antes que o pudessem impedir, tirou a venda que tinha nos olhos e pôs-se a procurar o fundo da montra. À esquerda, nada. À frente, nada. À direita… Um brilhozinho vermelho por baixo do holofote apagado. É agora. Vou morrer, pensou. Já morreste, pensei. Instintivamente fechou os olhos e começou a respirar descontroladamente. Espremeu a mão por baixo do holofote e agarrou-me por uma pata. Este tipo tem fibra, pensei. Vendo-se já morto e ainda assim prossegue no seu intento. Galhardo. Apanha-me, certifica-se que sou eu, fofinho, com focinho de urso, perninhas, mãozinhas e orelhinhas de urso e enfia-me dentro de uma sacola. Sinto-me perto do fim, da liberdade. Está quase. Saindo da loja de brinquedos pela porta da frente, o inspector empunha o saco sem espalhafato. Não como se levasse a cabeça de Átila, mas antes, um saco de lixo a pingar que quer manter afastado no fato. Não gostei. Este homem é um profissional. Correm para ele, saúdam-no, o seu chefe ameaça despromovê-lo mas logo sanciona o comportamento por via de uma continência. Mais uma vez, coisas de gajos que só ficam bem em filmes. O inspector, alheio ao corte na mão, às palmadas na costas, à reprimenda do seu chefe, observa a fornalha trazida para a rua e onde já tinham ardido todos os outros brinquedos. Dirige-se a ela e prepara-se para lançar o saco às chamas quando um homem o detém. Agora é connosco, diz o homem mostrando um distintivo reluzente. Perante a recusa do inspector, desvenda a arma por baixo do casaco e aperta o braço do inspector com mais forca. Dá-se mais um daqueles momentos em que os contendores procuram, pela dureza da expressão, mostrar qual deles a tem maior, razão, arma, atitude, coragem, eu sei lá. Sou apenas um urso de pelúcia. Numa atitude de afronta, o inspector mete a mão ao saco e o homem passa-se. Ameaçando expor-me àquela gente toda, o inspector ganha vantagem. Uns recuam, outros voltam costas, outros ainda tapam os olhos. O mesmo fez o agente que o segurava e no instante em que largou o braço do inspector, este correu para a fornalha e lançou-me lá para dentro.

Chega ao fim esta história. Acaba bem, como todas as historias de brinquedos deveriam acabar. Ardo lentamente, mas não me importo. Sinto já a costura a quebrar, a estopa a ser devorada pelas labaredas. Ardeu o ponto que me prendia a este urso de pelúcia. Emerjo das chamas. Terminou este momento. Estou livre.

villain / vilão

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –8–

villain / vilão

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –9–