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Da cova – Para os Novos Velhos Tempos – Copérnico

Globo terrestre em relvado

De forma um pouco melodramática, poder-se-á dizer que quando Nicolau Copérnico, em 1543, expirou, o fez segurando finalmente o seu: “Das Revoluções dos Mundos Celestes”. Nesse dia seriam enterrados Copérnico e o geocentrismo, concepção do universo de Ptolomeu, ou que Ptolomeu deixou aos vindouros, que afirmava ser a Terra o centro do universo e os planetas, Sol e estrelas, deslocarem-se em órbitas concêntricas desta. Apesar de proibida, a obra de Copérnico, foi difundida pelos astrónomos europeus renascentistas e, no que tinha de errado, a imobilidade do sol e a circularidade das órbitas planetárias, foi fermento, pulga, fome. Keppler alicerçado nas extensas medições astronómicas de Tycho Brahe, apercebeu-se que a confirmação matemática que procurava para o heliocentrismo era impossível de atingir por estar em conflito com os dados que dispunha resultante das observações e medições cuidadas do seu mestre. Em breve, publicaria “Epitome Astronomiæ Copernicanæ”, obra onde exara as três leis do movimento: a órbita elíptica dos planetas; a proporcionalidade da velocidade do planeta na sua órbita face à distância a que se encontra em determinado momento do sol; e por fim, a relação entre o período de transição do planeta face à distância média que traz do sol.

Mais ou menos pela mesma altura, Galileu tentava conferir ao heliocentrismo validação segundo uma metodologia verdadeiramente científica; mais do que a tese defendida até à morte, fica o trabalho da mente prática de homem de ciência, moderno, num renascentismo que começava a mostrar fragilidades e que talvez, se souber, poderei mais tarde abordar.

Newton, na vertente de homem renascentista e na de cientista moderno, sintetizou, de forma talvez falsamente modesta, mas correcta, a sua importância para a construção humana: “Se eu vi mais longe que outros é porque estive aos ombros de gigantes”. Mais do que as leis do movimento, o cálculo diferencial, a alquimia, o misticismo ou a teoria corpuscular da luz, é a generalização da aplicabilidade das leis, ao conhecido e ao desconhecido, que regem os corpos do universo, no meu entender, o seu passo maior.

Já no Século XX, Einstein procurou abraçar o universo especializando-se, dirigindo o seu saber para o que mais o atraía: a física. Com Mileva Maric – existiria Einstein se não tivesse existido Mileva Maric – publica o seu primeiro trabalho, “Consequências do Efeito da Capilaridade”, talvez revelador do seu gosto pelo tormento das singularidades. Em pouco mais de dez anos “relativisa” o mundo e torna-se a primeira super-estrela do mundo científico. Prossegue, sem o brilho dos primeiros trabalhos, o seu trabalho e em 1954, consagrado e, porventura, deificado, alerta para a possibilidade de a base sobre a qual edificou o seu conhecimento, e, de resto, a física do Século XX, estar errada; refere Lessing: “A aspiração à verdade é mais preciosa do que sua posse garantida”, numa tentativa de justificar, como se o tivesse que fazer, o seu trabalho, a sua vida e talvez, quem sabe, dar sentido à vida de Mileva Maric.

Este percurso, toscamente resumido dá, acho, a entender como o pensamento científico marginalizou progressivamente a Terra face ao universo, não por desdém ou perfídia da classe científica, mas sim, e voltamos à frase de Lessing, por acharmos, hoje, que é este o funcionamento da maquina do mundo e sempre com este pressuposto em mente, terei como verdadeiras as explicações apresentadas pelos diferentes ramos do saber para os diferentes aspectos da mesma realidade que nos envolve. Por outro lado poderá alguém dizer que a Terra não é mesmo o centro do universo, assumindo que este é fechado e infinito. O meu filho, aos oito anos, deu-se conta que era um astronauta a viver numa nave espacial, a Terra, viajando a 36 000 kms/h pelo universo. Quem conseguir contrariar este ponto de vista que o faça. Passo a explicar: começa a terra como sendo o centro de tudo, o próprio éden estava à sua volta; muda-se depois o centro para o nosso sol, estrela absoluta em torno da qual tudo revolve; sabemos agora que estamos confortavelmente arrumados na orla de um braço de uma pequena galáxia espiral distante das metrópoles cósmicas, aquecidos por uma estrela amarela de dimensões modestas e sempre, sempre em movimento. Esta perda de preponderância mostra-me algo que sempre esteve à frente dos olhos mas sempre me iludiu. Se estava a Terra no centro do mundo, estava o Homem, criatura máxima do acto criador de deus, no centro desta. Numa ordenação paralela à dos astros, está o homem no centro do universo, rodeado de toda a sorte de bichos e folhagens e ares e pedras, e destes se serve como alguém que retira o alimento da cornucópia da abundância, julgando-se fora dela e não lhe estando ligado de forma alguma. Ao seu redor pairam almas, penadas umas, alvas outras e mais lá para cima amparam-no querubins e serafins, santos e outros anjos e arcanjos, todos sob o olhar complacente e protector de nossa senhora e da santíssima trindade. Com diferentes intérpretes, as três grandes monoteístas partilham esta visão do mundo e sobre esta visão arregimentam e singram.

Cresci crente dos ensinamentos da santa madre igreja, se bem que, numa atitude que muitos dirão preguiçosa e egoísta, sempre desconfiei da infalibilidade do papa, do credo, dos santos e do demónio e do génesis. Fazia-me – e ainda me faz –, confusão a liturgia, a hierarquia, todo o edifício de intermediação – o terreno e o celeste – com deus e cristo e o espírito santo. A opulência, a devoção interessada pelos santos, a visão da existência terrena como uma provação, o céu como esmola e o inferno como destino dos xamãs do amazonas. A incongruência resultante das leituras do novo e do velho testamento quanto à salvação; qual o deus que nos acolhe na nossa última hora: o que precipitou frei Genebro ou o que nos ouve o arrependimento sentido? Em idade de razão e sem razão para duvidar de Darwin, comecei a questionar a doutrina.

Se a teoria evolucionista das espécies está comprovada e mesmo aceite da igreja, como enquadrar o génesis? Se o homem evoluiu de primatas, a partir de que estádio evolutivo é que entendeu deus insuflar o seu divino espírito na criatura e transforma-la em mais que um bicho, dando-lhe a alma humana que dizemos possuir. Se teólogos da igreja reconhecem alma nos animais, em quê que ela difere da alma humana? O porquê do celibato dos sacerdotes e, já agora, se o sacerdote está obrigado a celibato, que diferença faz que seja homossexual. Estará a igreja católica a seguir o caminho do judeu que morreu na cruz ou o traçado por Constantino? A igreja não explicou as bases da fé à luz da ciência. Pode pensar-se que o deve à humanidade, recentrar a fé, não fazer uma adaptação aos dias de hoje, como alguns pedem, porque os dias de amanhã serão outros, mas sim explica-la aos cristãos à luz da razão e daquilo que se tem por seguro. Pode também achar-se que o catolicismo é o que é e não tem que mudar, que a mensagem tem valor per si, é intemporal e permanece como um modo de vida a todos os níveis actual e viável. Independentemente do que se ache, a tarefa de recentrar a fé da igreja compete exclusivamente aos que, dentro dela e independentemente do que se consideram, são efectivamente católicos, apostólicos, romanos; os que dela têm dúvidas e reservas e se dela se distanciam, devem, quando muito, apresentar as razões que os levaram a afastar-se e, se quiserem, revelar a sua fé alternativa, seja ela qual for, exista ou não.

A história é farta de exemplos mas, do meu ponto de vista, o melhor desses exemplos, de alguém que recentrou sem mudar, é o de cristo. Fiel ao judaísmo, não negou a sua fé, recentrou-a, o seu deus passou de castigador a amador sem deixar de ser pai, o respeito pelos evangelhos, que deixou de ser feito na perspectiva da punição para passar a ser feito na perspectiva do amor e da liberdade trazida pela responsabilidade pessoal, manteve-se. Quem, por sua vez, tomou para si os evangelhos, novos e velhos, os filtrou e compilou e sobre eles fez doutrina, afastou-se irremediavelmente da mensagem de cristo e fundou uma nova religião. Censurável? Não creio, todos deveriam ser livres de cumprir o mandato da sua consciência. Talvez tenha, mais tarde, que meditar sobre este assunto e explana-lo melhor. Não que procure arregimentar, ou mesmo fazer pedagogia, o que seria deplorável, mas sim confrontar-me e dessa forma progredir.

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Faunos

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Copernico