Anémonas microscópicas
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Porque o método científico liberta

Para te ajudar a perceber o que tu já sabes, mas a idade (ainda bem) te eleva noutras direções, talvez beneficies e quebres a relutância que trazes para com os investigadores e a investigação científica se identificares e diferenciares dois conceitos simples: rigidez (1. Qualidade ou estado de rígido; 2. Aspereza; austeridade) e rigor (1. Rigidez, inflexibilidade. 2. Força, aspereza, o mais forte de. 3. Severidade extrema. 4. [Figurado] Concisão, exactidão, sentido próprio (da frase ou do vocábulo).

Como vez pelas definições de dicionário, o segundo pode muito bem ser confundido com o primeiro se não for feita uma observação atenta à forma como o conceito rigor é aplicado ao método científico e à forma como este está estruturado. Com efeito, as aparentes limitações que o método científico impõe a si mesmo, superficialmente vistas como sinónimo de rigidez, não resultam (não deveriam em circunstância alguma) nem de tacanhez de visão nem de censura por parte de membros da comunidade ou da sua totalidade enquanto estrutura de pensamento. O método científico impõem limites sim, mas não ao objeto de estudo nem à visão crítica do investigador sobre esse objeto. Impõe limitações, chamemos-lhes assim, porque me falta, neste momento, melhor termo, por duas classes de problemas que emergem do ato (científico) de conhecer. A primeira, sabes bem, tem a ver com a imensidão do objeto, seja ele qual for, uma sociedade ou uma bactéria; a segunda, também sabes, releva para a necessidade de saber o que fazer e o que saber de antemão para conduzires com sucesso esse ato.

Percebes também que rigidez é o contrário da inteligência, logo rejeitada liminarmente por todo e qualquer cientista digno desse nome, e que rigor, em ciência, não é mais do que a medida da própria ciência. É o que a vai, por um lado, impedir que se perca nos desenvolvimentos e derivas do estudo e da análise e, por outro, desconsidere e não incorpore conhecimento científico adquirido e válido, nem faça uso criterioso dos instrumentos usados e comprovados no decurso de incontáveis investigações em todos os campos do saber.

Perguntas agora: E não posso inovar? A resposta é, claro; podes. E deves. Mas para não correres o risco de cair no senso comum ou na para-ciência, deverás ser rigoroso, no sentido do rigor científico. Melhor ainda, rigoroso na forma como usas a medida da ciência. O rigor nunca te fará sentir restringido por um método que tão bons resultados produziu (e produz) e que é a única forma de verificares e diminuires a probabilidade de estares errado (ainda que nunca o possas fazer na totalidade). Antes, deverás usá-lo como um instrumento de liberdade e não como uma limitação do estudo, da mesma forma que não te sentes aprisionado ao uso de uma faca para cortar carne em vez, sei lá, uma escova de dentes. Nada te impede de a usar a segunda, mas se o fizeres e persistires, estarás a ceder à rigidez.

E no que consiste então, inovar em ciência? É uma pergunta à qual tenho dificuldade em responder, porque me considero ignorante sobre a matéria. Do pouco que sei, do que tive de saber para conduzir a minha investigação, ficam três ideias. A primeira é que terás de conhecer aquilo com o qual concordas para alicerçar e conduzir a tua investigação em novos rumos de conhecimento; a segunda é que terás de conhecer ainda melhor aquilo com o qual não concordas, para poderes apresentar com segurança e rigor os argumentos científicos que desmontarão (ou não) a tese com a qual discordas; e a terceira prende-se contigo mesmo e com a capacidade de te considerares sempre um ignorante desperto e vigilante perante a vastidão do desconhecido e perante todo o saber acumulado pelos teus predecessores e contemporâneos.

Beijos aos dois,
Pai

Mulher deitada, entre lençóis

Haiku

Tubarão nadando

Mandou o pé