Tubarão nadando
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Mandou o pé

Antes da paragem onde sairia pela última vez, mandou um dos pés à frente. O pé bom, aquele que marcava os golos quase todos, o que dançava melhor e o que sabia sempre quando ia chover. O que sobraria de si ficou no elétrico, esperando a chegada da paragem. Sentado junto à janela aberta, apoiava o braço esquerdo (o bom, o que tinha a mão que desenhava com palavras) na beira da janela aberta. O sol meigo e o vento branco aqueciam-lhe o braço (o bom), o rosto (o único que tinha) e, percolando, o mais o que dele sobrava naquele banco de elétrico em direção ao primeiro dia da sua vida. Sentia que apesar de ter vivido, que nunca havia feito como os pássaros que cavalgavam a onda de deslocação de ar que os camiões empurram com a sua marcha, para depois se desviarem subindo para a direita ou para a esquerda e pousarem nos cabos elétricos, ou como o herói que vive nos sonhos dos desiludidos, repetindo as pequenas histórias das suas pequenas vitórias ou como o peixe voador que emprega toda a sua liberdade, ora fugindo das aves marinhas, ora fugindo dos peixes grandes.

Sentado, o mundo desfilava pela janela de madeira e vidro e rangeres de madeira de ferro e de ar comprimido, numa banda sonora tão cacofónica como plácida, como se os sons velhos que o elétrico produzia ao ver passar o trajeto, fossem os próprios sons do mundo; que nada mais houvesse para lá daqueles clanques e craques e pingues e zázes. Semi cerrava os olhos (os dois que tinha) e balançava a cabeça ao ritmo descompassado do mundo. Era um tango trôpego que por ele passava onde, nem mundo nem elétrico conduziam ou se deixavam conduzir. Pensou por breves instantes que seria o fim. Que pelo facto de o elétrico descer desgovernadamente a rua, aproximando-se perigosamente do rio, nele mergulhariam e dariam por findas as suas fugazes existências. Mas não. Isso não era importante no momento. Pensava no pé que mandou à frente, o bom, o dos golos e da dança. Onde estaria já? Teria tido tempo de a encontrar? Teria podido dizer-lhe que não apenas ele, mas todo ele a ama, a deseja sempre que não a vê e não viveu mais um minuto para lá daquele em que os seus olhos meigos encheram os seus?

Aproximava-se o rio do elétrico e tanta vontade mostrava de nele o fazer mergulhar. Um rio como aquele que via, oceânico, de profundidade infinita para a compreensão quer dos sentidos quer da mente que deambulava entre o êxtase de a amar e o vento branco que soprava assustado.

Chegado o rio, o elétrico inicia a sua viagem de ascensão ao mais fundo de cada um dos seus ocupantes. Vencido o choque inicial do impacto com o rio, elétrico, ocupantes e o sol que se perdia, imergem lentamente, num percurso desconhecido mas familiar em direção ao olvido dos membros, dos órgãos, do pensamento e do sentir. Pairando em suave abatimento através da zona epipelágica, observa com estupefação o esplendor de cores e formas que o envolvia. Peixes, algas, moluscos, esponjas, em cores tão grandes como o amarelo e tão pequenas como o azul, enchiam os olhos de arcos coloridos, de cadeias alimentares, de sonhos húmidos e de trinados de bolhas ascendentes. Era o tempo da dança da vida com o sol que lavrava as águas com charruas de raios de luz, alimentando algas microscópicas encerradas em corpos ínfimos de massas incontáveis de pólipos de coral e de algas maiores, de muitas cores, formas e tamanhos, ora ondulantes, ora agarradas às pedras e às carapaças de artrópodes e tartarugas. É o reino da fotosíntese. A luz, combinada com o produto da maior e mais prolongada ação poluídora que o mundo conheceu, a ação das ciano-bacterias primordiais, alimenta o cosmos terráqueo.

Passados os duzentos metros de profundidade, cansa-se o sol de lavrar as águas, deixando-as ao meio do que é do meio e que não é nem deixa de ser. Na zona mezopelágica, entre os duzentos e os mil metros, não há plantas, nem haverá mais daqui até sempre. Dentro do elétrico, observa impotente os animais que aqui vivem. Pensa em ondas de pensamentos ansiosos por deixar os neurónios que os seguram. São homens e mulheres dos subúrbios esses animais que observa pela janela, por cima do ombro. Animais que, em comutação inversa, ascendem à cidade quando esta dorme, regressando à escuridão pouco antes dela acordar. Sobem para limpar e são predados pelos guardas da noite. Alguns sobem para predar. São feios e ninguém os ama lá por cima. Há uma claridade ténue por cima do elétrico que embala a sua descia dormente e dá forma fátua aos objetos e aos seres que por ali deambulam em busca do que busca quando buscar é simultaneamente ação e destino.

O eléctrico viaja agora algures entre os mil e os quatro mil metros de profundidade, na zona batipelágica. Os corpos dos ocupantes convivem uns com os outros, flutuando no interior do elétrico, animados pela água que pelas janelas abertas gera leves correntes convectivas que animam a inerte congregação. Dançam sem olhar a sexo ou idade, trocam de par, tocam-se mutuamente e roçam-se sem pudor ou embaraço, num convívio de silêncios e esmagamento. Não há luz; nenhuma. Nada se vê. Tudo tem de ser sentido com os ouvidos, com os bigodes ou vibrissas, com as ampolas de Lorenzini, ou pela corrente elétrica que cada corpo produz. Sente algo roçar-lhe o coto do pé e assusta-se temendo o pior. Será um tubarão albafar? Uma lula gigante? Um leão marinho, explorador campeão das profundezas? Vai-se a pele lisa e suave, assim como a boca sensível que o tocou na perna. Fica o medo de estar só, abandonado num lugar que não é o seu, nem dos seus, nem dos como os iguais a ele. Espera-o a zona abissopelágica e depois dela, a temida zona hadopelágica, onde a luz é desconhecida e a vida rege-se por outros valores que não os seus, que não os do sol. Aqui há enxofre e animais que chamam lar ao absoluto inabitável. Sem olhos, sem cor e, porém com vida; repletos de vida.

Sente os seres abissais rodearem-no, medirem-lhe as frias carnes e os lascados ossos que lhes sucederão; colam seus beiços moles e táteis aos seus olhos e arrancam-lhe as pestanas com as rádulas sonoras. Desespera, arrepende-se de ter mandado o pé bom à frente. Mas eis que ele chega, a patear as profundezas. E trás consigo o telemóvel que flutuava por ali. Reunidos, abre a app e chama um scuber, os únicos que arriscam ir para aquelas bandas. Chega o transporte; um bicho feio, carregado de tentáculos vem ao volante. Para cima? Para cima; para a luz; o quanto antes. Já vê sombras na escuridão. Antecipa o sol e o conforto da luz matriarca. Fica no silêncio o elétrico e a rave dos desprovidos de sentidos.

Anémonas microscópicas

Porque o método científico liberta

rapaz a gritar; microfone

Projeto Novi