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O que é isso de Intercultural?

Imagem de Hanuman

Eram aí uns 7 ou 8, numa reunião parda, com os pardos traços de excentricidade e irreverência empresarialmente toleradas, de criativos pardos, para um cliente efémero que desejava comercializar em Portugal, computadores montados na Índia. O briefing, entre outros chavões, deprimentes por banais, reclamava um nome fraturante mas associável ao país e à profunda e profusa cultura da sua dúbia origem. O Ratinho branco foi chamado à reunião à última hora talvez por ser sociólogo e escritor ou talvez para mostrar ao cliente que, pelo número de presente do lado da agência, dávamos muito interesse à sua conta. Priya foi incluída por ser account, mas, sobretudo, por ser uma jovem Brahmane nascida em Portugal.

Como então, o acesso à informação ao dispor na internet começava a entranhar-se gerações dos presentes, porém, sem discernimento ou critério, a conversa ficou-se pelas generalidades, pelo circunstancial e pelo caricatural do que é a Índia, do que são as suas gentes, do singular da sua cultura e marca na humanidade; asneiras. Priya observava, entre o incómodo e a diversão que a ignorância alheia pode causar. O Ratinho branco, ciente do seu papel de adereço, abanava a cabeça apenas às afirmações mais disparatadas.

Levados meia hora nisto, Teresa, para justificar cargo e salário, puxa a sua cartada triunfal: “Conheço razoavelmente a cultura indiana…” dizia com garbo e olhando Priya, “e acho que podíamos usar o nome Hanuman, o deus-macaco”. E continuava, iluminada com o conhecimento adquirido em leituras cruzadas, truncadas e desconexas. “É adorado pela sabedoria e capacidade de sacrifício”. Prestes a despregar o riso, o Ratinho branco estendeu o seu olhar para Priya que, do outro lado da mesa, escondia uma lágrima que lhe percorrera a face, saída da alma ferida. Os lábios perderam a força que a custo estava a conter e entristeceu-se juntamente com Priya. Levantou-se da cadeira minúscula e atravessou a mesa para chegar a Priya que chorava inconsolável. Para surpresa e incómodo dos restantes, saíram da sala. Numa outra sala de reuniões, do outro lado da agência, depois de chorar e rezar baixinho em Hindi, disse-lhe em português: “Sou muito devota de Hanuman. E ele não é um deus-macaco, é um avatar de Shiva e primeiro devoto de Rama. Medito sobre o seu sagrado nome para afastar, de mim e dos que amo, as más influências de Shani”.

Numa sala de reuniões vazia, o Ratinho branco e Priya meditaram sobre o sagrado nome de Hanuman. Ela, com o respeito e reverência que a Deus é devido. O Ratinho branco, da única forma que um ratinho agnóstico pode fazer: maravilhar-se resignado com a imensidão do absoluto e com a sua incapacidade para o compreender.

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