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Preguiça

Preguiça de 3 dedos

Sou um preguiçoso dos diabos. Inequívoca e explicitamente preguiçoso. E não me considero um procrastinator, pois, na minha cabeça, embora aceite que se possa substituir um traço de caráter por uma condição psicológica logo, algo à partida fora do alcance do indivíduo, impedindo-o de a esse algo obstar, na minha cabeça, dizia, chamar-me procrastinator seria uma de duas, situações: render-me ao fatalismo (que sempre me fascinou, mas que devo rejeitar por motivos óbvios) ou, entregar o ónus do meu “problema” a terceiros. Não estou confortável com qualquer uma das situações. Estou já a ver alguém dizer que se está perante um caso clássico de anosognosia. Em meu favor, jogará saber e aceitar que sou preguiçoso. Que as cenas me custam, independente do que sejam. Ainda que sejam coisas que me dão gosto fazer, como escrever. Basta o calor da cama para me demover do texto que baila na minha mente e, posto a helvética ou times, salvaria a humanidade. Basta uma série fantasiosa e inútil para me desviar do trabalho que mais escasseia do que farta. Por vezes julgo que a preguiça se entrelaça com o desempenhar de tarefas. No sentido em que, se é algo que deve ser feito num intervalo de tempo específico, esse algo atenta contra a minha vontade de o realizar. E lá vêm as desculpas para não realizar (– Estás a procrastinar. – Estarei? – Estás. Isso é anosognosia.”), o que deve ser feito. Acabar o foi começado, terminar algo com o mesmo ímpeto e empenhamento como foi começado. Deveria ter feito aqui um parágrafo, mas estou com preguiça. Pois sabe tão bem ser preguiçoso, ainda que o remorso possa vir a seguir ferrar o rabo. Ver GOT de enfiada, com pausas apenas para a fisiologia (IN e OUT). Caminhar a direito sem ter decidir onde virar, apenas ir, sem outro rumo que a cadência da passada. Escolher uma música entre as milhares que estão na biblioteca do telefone e ouvi-la por horas a fio, em loop continuo, enquanto a paisagem desfila pela janela do comboio. Ver a/o filha/o a dormir e imaginar que a vida se perpetuaria nesse momento de absoluto bem-estar.

(Lá terá que ser)
Saber-me preguiçoso permitiu-me perceber porque me custa tanto fazer algumas tarefas e quanto prazer retiro de outras ou dessas mesmas uma vez iniciadas. Permitiu-me também, como um menino crescido, uma análise de custo benefício de qualquer tarefa, como, por exemplo, ter de sair de casa para ver o pôr-do-sol. Mas, e ao contrário do alcoólico, que reconhecendo a sua condição, se obriga ao zero absoluto, mantendo-se assim, orgulhosamente alcoólicos limpos, eu, o preguiçoso, posso (poderei?) permiti-me uma certa dose de preguiça. Um limite pessoal e socialmente aceitável que me mantenha funcional e integrado. Uns 0,5 g/l à semana, e níveis perigosos para a saúde de onde a onde.

Elétrico do Porto - 22 Batalha

O início de tudo

Imagem de Hanuman

O que é isso de Intercultural?