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O dia amanheceu

Gaivota encarando de frente

Ponto I

O dia amanheceu esconso; céu frio e vento austero, como se o inverno se propagasse tal qual vírus cristalino que contagia a primavera. De pé, à janela, encaro o logro meteorológico como um jornal mudo. Passa um senhor e depois um carro. Passam mais um ou dois carros e logo pára um autocarro, debalde. É cedo. O sol, ainda oblíquo, detém-se. Mesmo a esta hora, mesmo com este céu, já cá deveriam andar mais pessoas. Aquelas atarefadas logo pela manhã, aqueles garotos que vão para a escola e liceus, aqueles mais crescidos (mais mulheres que homens), ora nas paragens, ora a pé, ora nos carros apressados para o trabalho, para qualquer coisa que não desejam. Aparte dos garotos que ainda não esqueceram viver, não sorriem. Vão absortos, olhos vazios nos pequenos ecrãs ou no carro da frente, iniciam mais um dia esconso, de uma vida toda ela esconsa.

Ponto II

Mas nada disso se passa hoje. Vejo com desmesurada nitidez as montanhas do outro lado do rio; vejo a rua toda até à praça, lá ao fundo da reta de alcatrão abismal; vejo as plantas e os animais, indiferentes ao frio, se cobrirem de folhas e abandonar a segurança dos telhados e aventurar-se nas ruas, nos passeios, nos carros ordeiramente abandonados nos estacionamentos. Vejo-me então refletido naquela rua. Vazio, escondido pelo invisível e frágil como a barreira que me detém.

Ponto III

Um murmúrio de asas desprender-me do que sou. Uma gaivota poisa no parapeito da janela, a uns ostensivos trinta centímetros de mim. Fita-me ora com um olho, ora com o outro; fito-a com os dois olhos. A vantagem anatómica não se traduz numa vantagem emocional. Estamos empatados. Ela diz ter medo de mim por eu ser grande e estranho; eu digo ter medo dela por ela ter uma aparência assassina. Condenados um ao outro numa eternidade fugaz, começo a olha-la com um olho de cada vez, com ligeiros volteios da cabeça, ora o esquerdo, ora o direito; ela, por sua vez, encara-me de frente, com os seus dois olhos, fitando-me imóvel. Com os lábios vermelhos de confiança, sorrio. A mancha vermelha na parte inferior do seu bico parece perder a sua força assassina e sorri de volta. Pergunto se fica para o pequeno pequeno-almoço. Declina, tem casa dois pisos acima e o marido à espera.

Ramos frondosos

Pudesse eu

capa de livro "ESTRADA"

ESTRADA