2025 – versão estendida
Conto incluído no tomo II da coletânea “Porto – Uma Cidade com Alma”, publicado pela Chiado Books.
Havia um homem que percorria a baixa da cidade de Bíblia na mão. Começava sempre no adro da igreja da Trindade, onde três vezes se benzia e três vezes vociferava contra deus. Completo o ritual, metia à rua do Estevão, onde sorria para as prostitutas para delas receber igual tratamento, e virava à direita para a rua do Bonjardim, onde se repetiam, recíprocos, os sorrisos. Se era hora para tal, mendigava, mais abaixo, uma sobra de frango e sentava-se a comê-la nos degraus da praça dos 5 cus, também conhecida por praça D. João I. Continuava pelo Bonjardim, no o sentido descendente, até cortar para Sampaio Bruno, onde, dado ser uma rua pedonal desde que me lembro e ter muito comércio, formal e informal, era apreciada pelo povo portuense que a apinhava. Era aí que o homem, face ao incómodo da proximidade, arranjava a maior parte dos seus problemas. Certo dia, não vi, mas foi noticiado, empertigou-se com uma senhora que comprava a Eva do natal. Da confusão criada, resolvida pela polícia, resultaram um sagrado coração de jesus e dois meninos da lágrima rasgados e uma ida ao Hospital de Santo António, pelas mãos dos dois agentes da PSP que acudiram à confusão. Mas essa, foi uma vez sem exemplo. Normalmente, percorria a rua no aconchego da indiferença geral, virava a esquina e, incólume, chegava ao café Imperial. Cumprimentava a águia de longe. Não batia a essa porta, pois sabia que não o serviam. Depois era coisa de atravessar, fora das passadeiras e corrido a buzinas, para a Sá Reis para depois começar a subir a Avenida dos Aliados. Parava algo distante da porta do carismático estabelecimento e esperava até que lhe atirassem uma cerveja para longe da entrada. Bebida a cerveja, era tempo de retomar o caminho para cima, umas vezes pela rua do Almada, quando queria evitar os polícias em frente ao Banco de Portugal, outras, a direito pela avenida. Terminava em frente ao café Capitólio, onde era igualmente destratado, mas, tal como lá em baixo, o seu dinheiro era aceite.
Foi ali, no capitólio, onde por vezes lanchava com o pai que tinha escritório de representações de malhas no emblemático edifício, que primeiramente vi aquela figura bizarra. Dizia o pai que era um senhor respeitado e de posses, um professor, que ficou tolinho quando a mulher lhe morreu de repente.
Era velho e estava sempre sujo, muito desgrenhado e maltrapilho. Irascível com os transeuntes, não se dava com ninguém e pedia apenas o suficiente para se manter mal alimentado e levemente embriagado pela maior parte do dia. Era um pregador sem que se lhe conhecesse mensagem. Encostado ao Garrett, empunhando uma bíblia de capa gasta e miolo esboroado, gritava sermões impossíveis e era boçal com quem passava. Acusava-os de devassidão, usura e gula. Aos padres, de simonia, e aos miúdos, como eu e outros, de gatunos. Todos iriam arder nas chamas purificadoras do inferno. Cheirava muito mal quando, no inverno, a chuva lhe ensopava a roupa e o corpo cansado e cheirava ainda pior quando, no verão, o sol lhe aquecia a ossatura debaixo da roupa que estalava de suja. Ninguém o queria por perto. Lojistas, motoristas de autocarro e todos os portuenses atarefados que se cruzavam com ele. Até os varredores o ameaçavam com as suas vassouras de galhos, cansados dos insultos, ora porque limpavam mal, ora porque recolhiam uma garrafa de cerveja vazia ou um jornal que tinha por seu. Crianças e mulheres fugiam dele. Algumas mais rijas e homens, que se julgavam mais machos, ofereciam-lhe porrada. Os cidadãos mais comedidos, ou indiferentes, mudavam de passeio ou alargavam o passo para deixar de o ouvir. Eu, rapaz de 16 anos, adorava aquela personagem. Por causa do péssimo hábito de se embebedar a sério pela maré do chá e apagar a um canto lá para o fim da tarde até ao início do dia seguinte, obrigou-me a algo, que de resto gostava, e que é andar por aí logo de manhãzinha. Faltaria à escola, mas isso, então, era sinal de uma alma independente. Seguia-o discretamente para que não estranhasse ele, nem estranhassem as outras pessoas ao verem que tamanho vagabundo fosse alvo de cerrada perseguição por um rapaz. Por várias vezes tentei falar com ele na rua, sob este ou aquele pretexto, para que não percebesse, mas só levava com acenos de Bíblia na cara e quantidades enormes de perdigotos e insultos. A sua mensagem, existisse alguma, não era clara. Acabei por desistir do homem, tão impermeável que sempre se mostrava.
Certo dia, por mero acaso, apanhei o 78 na Baixa, em direção ao Castelo do Queijo. Encontrei-o sentado na cozinha, sobre o calor do motor do velho Leyland. Parecia outro. Sem estar propriamente limpo, notava-se que se tinha arranjado e a sua roupa não cheirava assim tão mal que não se aguentasse. Compôs o casaco coçado, alisou a barba e o cabelo e abriu a Bíblia. Revelou nesse momento uma dignidade na pose que ninguém imaginara. Dentro do autocarro, exponenciado pela postura direita e serena do homem, fez-se silêncio. O homem, tal como um padre católico que se mostra indiferente à existência ou inexistência de fieis durante a celebração da eucaristia, ou do seu nível de atenção, abrira a Bíblia e lia do Velho Testamento: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele? | E por que farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?” (Habacuque I, 13-14). Perguntei-lhe, a medo, por razão lia aquela passagem, aquela, mais uma das muitas em que os crentes ditos, não-praticantes, desesperam e vacilam, se insurgem e protestam, gritam injustiça e exigem explicações? Que outra resposta teria ele, para lá da casualidade da página aberta, diferente da resignação dos tempos ou da entrega a um intangível desígnio? Demorou na resposta; talvez surpreendido, não com a pergunta, mas somente por ter havido alguém que lha tivesse feito. Foi talvez nesse momento que me apercebi da sua genuinidade. Era um pregador verdadeiro.Um que não procurava a conversão. Um homem que descobrira no infortúnio, a missão da sua vida. Indiferente a considerações sobre os valores que atirava à urbe, vivia absorto do retorno que a sua mensagem poderia produzir, enlevado apenas pelo som da sua voz e pela força com que valorizava a sua mensagem. Dessa forma, e dessa forma apenas, se mantinha inerte, quase estóico, perante os ataques e os trotes verbais e físicos a que se submetia. Não o incomodava a fome, a falta de higiene, a doença que se adivinhava na pele e nos olhos, nas mãos e no hálito; não o incomodava o corpo castigado. Não o incomodava o julgamento dos cidadãos atarefados com os ritmos da cidade. Uma calma invadia-lhe o olhar e, na distância da sua mente, disse então, a mim e a todos no 78 que parara na rotunda da Boavista, que o Homem não é feito de carne e osso. Apenas o aparentava ser. O Homem, o verdadeiro Homem, é feito de metal e nas suas veias, corre o fogo de deus, transmitido da sarça ardente que falou com Moisés. É maluco!, ouviu-se na frente do autocarro. Levantou-se, tocou a campainha e, ao sair, disse: E ainda assim, tenho razão.
Absorto com o que ouvira, dei por mim no Castelo e saí do autocarro no fim da linha. Fiquei por lá a matutar no que ouvira, como matuta um rapaz de 16 anos. Comprei língua da sogra, conversei com os pescadores à linha sobre o que estava a morder, para depois me sentar numa pedra e ver o sol despedir-se entre o Castelo e o Jakob Maersk, que ficaria por ali ainda por mais uns dez anos. Alguns dias depois, num recado à rua formosa para comprar café moído para cafeteira, procurei-o sem sucesso, pelas ruas onde me habituei a vê-lo. Queria perguntar-lhe com que olhos via ele o mundo, que lhe permitia percebê-lo como nenhum outro ser humano. Nessa noite, o pai trouxe o JN e mostrou-me, naquela secção dedicada a casos de polícia, como encontraram o corpo de um homem num prédio que nunca ganhou mais do ossos, ali para os lados do Campo 24 de Agosto. Pela descrição feita pelo jornalista de serviço, tratava-se do homem que procurara naquele dia. Dizia a notícia que, inexplicavelmente e ao contrário do que é habitual, os ratos haviam levado quase todas suas as roupas e mesmo as botas, deixando apenas trapos envolvendo um farrapo. Estou certo que não se importou. Encontraram-no deitado, com os braços abertos e a cabeça caída sobre um dos ombros, sobre um monte de entulho, como se este o amparasse na morte. Numa das mãos, a bíblia gasta. O marcador assinalava as páginas onde um outro homem falava de perdão.

