in

Se ao menos me ouvisses

Duas canecas. Foto de Tom Crew

(?)

  • (…) Desculpa, que queres de mim?
  • Apenas que me ames. Será pedir muito?
  • Sabes bem que não posso. Não sabes?
  • Deveria saber? Que me disseram os teus olhares cúmplices em reuniões enfadonhas, os teus beijos marcados a fogo e sal na minha face quando, de manhã, chegavas com ligeiro atraso, os teus abraços tímidos, a tua mão no meu ombro enquanto trabalhava, senão que me amas?
  • Não vês que somos amigos? Que desde logo, do primeiro dia, a nossa relação foi de amizade?
  • Amizade? Apenas amizade? Okay, e porque não construir o amor em cima dessa rocha?
  • Crês que é assim?
  • Sim creio. Se te amo, se construí o meu amor por ti a partir desta amizade que é nossa e se é um amor tão carente do teu, porque só assim se completa, porque não constróis tu, meu amor, a parte que nos falta? És incapaz de amar?
  • Não. Sou apenas incapaz de te amar. Porque não aceitas o que te digo?
  • Aceitar não te amar. Aceitarias não respirar? Aceitarias não correr para a luz do túnel frio que é a vida sem o teu amor? Porque não me amas?
  • Porque não te amo? Haverá alguma resposta que te possa dar que não me deixe triste a mim e a ti em sofrimento?
  • Há. Diz-me que me amas. Apenas a mim. Que queres passar a tua vida comigo. Que juntos seremos um. Que seremos felizes e cúmplices. Que a tua vida será a minha vida e que a minha vida será a tua vida. Dizes?
  • Como poderei dizer algo assim? Como poderei atraiçoar quem amo e o amor que me tem?
  • Não te move ser tudo por ti?
  • Como assim?
  • Tudo. Tudo. Acordo na ânsia de te ver, de trocar dois beijos na face contigo, de encostar o meu ombro ao teu enquanto fumamos encostados ao muro. Saio vezes demais do cubículo para passar em frente ao teu e beber do teu sorriso. Despeço-me de ti com medo de não te ver no dia seguinte e adormeço no conforto de sonhar contigo. Nada mais há na minha vida para lá de ti, percebes?
  • Que fiz eu para me amares desta forma? Que esperança, que alento te dei?
  • Não sabes?
  • Não. Não sei. Porquê?
  • Porque… existes?

(!)

  • Diz qualquer coisa!
  • Não. Não quero o teu amor. Recuso-o!
  • Não podes! É já teu, pá!
  • Sai!
  • Não saio nada!
  • Então saio eu. Deixa-me em paz!
  • Volta!
  • Não. Endoideceste!
  • Amo-te!
  • Cala-te! Cala-te já!
  • Por favor, volta!
  • Deixa-me, já disse!
  • Não te vou largar, nunca!
  • É de doidos!
  • Não! É amor!
  • É maluquice. Despeço-me. Despeço-me já!

(.)

  • Deixa. Saio eu.
  • Desculpa ter gritado contigo.
  • Talvez seja melhor assim, eu sair.
  • Vais encontrar que te faça feliz.
  • Já encontrei, és tu.
  • Alguém que ames, te respeite e que possa retribuir o teu amor.
  • O teu rosto meigo.
  • Uma pessoa vai surgir que te vai encantar, vais ver.
  • A tua voz cândida.
  • Esqueces-me em dois tempos.
  • A tua maneira sem maldade de olhar o mundo.
  • Vais ver. Só tens de ter paciência.
  • A forma doce como me cumprimentas pela manhã.
  • É, quando menos esperas, lá está essa pessoa, escondida diante dos teus olhos. Tu vais ver.
  • O peso do teu ombro enquanto fumamos encostados ao muro. O olhar cúmplice ao passar pelo teu cubículo. A leveza que dás às reuniões enfadonhas. (…)

(continua na primeira linha do primeiro diálogo)

Rosto de Hipólita

Hipólita?

Elétrico do Porto - 22 Batalha

O início de tudo