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Esplanada

Imagino-me sentado numa esplanada batida pelo sol que dissimula o seu intento soprando-me uma brisa redonda. Sentado só, numa mesa para quatro rodeado de mesas vazias, pés na cadeira oposta e costas reclinadas, encaro o sol de olhos vedados e ouvidos abertos ao mar hesitante. Sobre a mesa: uma chávena de café, fria e vazia; um copo de água, esquecido, vai a meio; a tralha que nos liga e prende aos outros, escondida debaixo de um jornal. Seguro a cabeça o melhor que posso enquanto me perco num sonho entranhado num sonho acordado de um tempo que deixei e que agora, emerso nele, me faz falta. Faz-me falta estar assim, sonhar que estou sentado, sem percepção das horas passadas se não pela candência da intromissão das nuvens no meu diálogo cego com o sol, enquanto me diz que há mais universo do que olhos vedados e calor do sol temperado pela brisa redonda de uma tarde breve de abril deixam perceber.

Nuvens

Bichinhas fofamente ominosas, as nuvens, escondem-se entre o refrigério e o desgosto. São, neste momento, exatamente o que necessito que sejam; um filme protetor da realidade, da luz crua, um guarda-sol distante e diáfano que conforta e acalenta o desejo de viver. Mas podem tornar-se rapidamente, sobretudo em abril, e neste abril, um enlevado desgosto. Zangam-se e choram sem fim por não serem chamadas à conversa com o sol. Recolho os pés da cadeira oposta; recolho a tralha e o jornal para a sacola cinzenta; recolho ao salão do café; recolho o troco e saio.

Mar

Continua a chover, desta feita sem choro, apenas alívio. Caem gotas por todo o lado, prateando o mundo, limpando-o dos tratos do sol. E o ar fica mais alto, mais vibrante. Tudo se passa mais perto dos ouvidos e mais longe dos olhos; é bom assim. As pessoas correm, os carros seguem nas esteiras dos precedentes, a luz foge quase toda para lá do horizonte, ficando apenas a parda que ainda assim ilumina o mundo com uma paleta simplificada, uniforme que marca os contornos como se tudo fosse novo outra vez. Não corro; não me resguardo com o jornal; não apresso sequer o passo. Sem baixar a cabeça; encaro de frente as gotas de chuva que me inundam de felicidade. É um novo dia no que começou soalheiro. É um novo dia para me perder de todos os outros dias, todas as outras horas, onde tudo que em cada um se mede, se pesa, se quantifica. Vejo-me encharcado pela vida que sonho, nas poças, nas vitrines, no mar que ribomba e protesta, sacudindo a água que cai com a água que é. É o mar que me chama agora, lembrando-me o sol sequestrado para bem do mundo, ainda que o mundo o lamente. O mar que me chama, como chamam as aves que sobre ele planam e os peixes que o cruzam; chamam em uníssono sinfónico para me dizer sem explicar, mostrar sem demonstrar, compreender sem expressar que o universo concorreu todo para este momento, que é só meu e das nuvens e do mar e de todos que o planam e cruzam. Que sorte tenho por ter um universo que se desenrola em milhares de milhões de anos, em distâncias infinitas, em inimagináveis eventos para me trazer este momento de felicidade.

o Herói
Chiaro Scuro

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