Busco e lamento, em simultâneo, o horror terno da multidão. Busco as vozes incessantes, imanentes de mil egos sobrepostos, que me permitem descansar sem estar encostado a uma parede. Os seus diálogos vazios —politicamente vazios, espiritualmente vazios, ontologicamente vazios— vazios do vazio que enche a amizade profunda, vazios do entendimento cúmplice, vazios do amor empático. Vazios do bramido das almas tortuosas, das que clamam no silêncio do entendimento tudo que há para dizer no mundo e ao mundo.
O calor sufocante das frases enfáticas para com as crianças, o empurrão dos argumentos inflamados dos que não dominam as suas convicções, as interrupções, sobreposições e as tentações de vencer uma batalha que não assiste a cavaqueios, revelam-se extremos. Acalmam e desesperam. São o amargo da poção que faz fluir o espírito. Sem o odioso, que sentido faria o vazio do ser? Sem o conforto, como poderia o ser repudia-lo?
O almoço na esplanada do mais recatado dos jardins com esplanada, sem o odioso da multidão, não levaria ao devaneio de a apreciar em toda a sua inoportunidade. Que seria do ser se, sentado na esplanada, se deparasse apenas com o lago e com os patos? Como suportaria a solidão de ver como nele deslizam? Que lhe gritaria o silêncio com que as águas ondulantes do lago e as asas frenéticas dos patos, não lhe enchessem o ar e a alma? Que monstros se elevariam da relva acabada de aparar? Com que armas assaltaria o vento as costas do incauto que se dispõe a apreciar o lago, os patos, a relva e o vento?
Nu perante o medo de existir só, suporta o enfado dos ombros, do bafo, das conversas e dos olhos. Conversa pela hipocrisia de ser como os demais. Mutila-o cada sorriso, castra-o cada remate sobre o tempo ou o custo de vida. Queria ser águia, lá no seu penhasco, ou congro, lá no seu buraco. Sentir que os ares rodopiantes a levam para longe, que as águas ondulantes o escondem. Não ter a conversa por respiração. Não ter o abraço por alimento. Ser pleno na sua incompletude.






