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Art.° 45 da CRP

Toca a campainha às 06:20. É Guga. Está descalça e não tem chave de casa. Tal como as botas, a chave foi-lhe levada pela polícia. Levou-lhe também a mochila, o cartão do cidadão, o telefone móvel e a sebenta que levou para estudar para a disciplina de psicossociologia. “Racharam a cabeça ao Kiko e partiam um braço à Maria (diz); bateram a quase todos, mesmo os fugiam e os que ajudavam os caídos (diz)”. Entrou em casa com uma tenda pela mão, dois colchões enrolados lá dentro, arranhões no pescoço, uma bastonada na coxa e um sentimento de impotência a rebentar pelos olhos. O abraço dos pais e o orgulho com que a olham, dissipam a tensão e libertam as lágrimas. Come um pouco, toma um banho rápido e vai dormir. Às sete dessa mesma tarde, ela e milhares estarão de regresso à Praça, com ânimo e gritando a justiça de uma luta que é de todos. Sem ódios e com a alegria partilhada da camaradagem, são o orgulho e têm a força dos que acreditam que todos, todos, têm direito ao futuro.

Art.° 58 da CRP

Jéssica responde torto à mãe por esta a ter mandado arrumar o quarto. Chegou tarde da manifestação e adormeceu. Veste-se à pressa. Repassa na sua mente a apresentação do pré-projeto de doutoramento. Terá de a fazer de forma assertiva e pormenorizada, evitando questões de acompanhamento, tendo assim tempo para chegar ao call centre na baixa. Enquanto escova o cabelo, lê a mensagem ansiosa da amiga sobre a saída do fim de semana para comemorarem os seus 36 anos. Depois de lhe entregar a lancheira com o almoço, a mãe oferece-se para lhe arrumar o quarto. Ela agradece-lhe com um beijo porque, quando sair do Modelo e chegar depois da meia-noite, não vai querer acordar os pais e o irmão pequenino.

Art.° 64 da CRP

Mota pergunta se as pêras são tenras. Apalpa umas quantas e opta por levar bananas ao perceber que os seus dentes não resistiriam ao confronto com qualquer uma das pêras rocha que estavam expostas na banca de comida montada pela organização. Enquanto beberica um café solúvel, servido por uma jovem com pouco mais de 20 anos e com olhos pesados pela ausência do sono, vai dizendo que apesar de reformado, tem de continuar a trabalhar. Recusa um pequeno bolo; culpa a diabetes. Recusa um pão com chouriço; culpa o colesterol elevado. A barriga cística e o ar ofegante, compõem o quadro do homem que indicia estar a chegar ao limite de viver a sua vida como sempre o fez.  Enquanto guarda um pacote de bolachas de chocolate que diz levar para a neta, sorri timidamente e agradece estes últimos dias que lhe permitiram comer melhor.

Art.° 65 da CRP

Mairulane, conhecida como a encantadora de bebés, por ser tão meiga e terna que, uma vez no seu colo e ao ouvirem a sua voz, acalmam e adormecem. A mulher a quem os portugueses chamam Maira por não entendem o seu nome quando ela o fala no seu sotaque, sentou-se no banco hostil da estação de metro dos Aliados. Passava da meia-noite de um longo dia quente de outubro. Suspira, abre a sacola gasta e dela tira uma bastante quente caixa de quilo de uma conhecida marca de margarina. Ao levantar a tampa, inunda a estação de um aroma a comida de restaurante, como se a churrasqueira tivesse, com ela, entrado na estação de metro pouco povoada por estudantes que regressam das casas dos pais, jovens e menos jovens que regressam do convívio nas ruas da cidade, turistas deste e daquele continente, alheios à promessa da cidade que lhes foi vendida e outros trabalhadores do setor do turismo. Com as pontas dos dedos, escolhe uma batata assada, arrumadinha com outras entre alguns nacos de carne assada e uma porção generosa de arroz. Tira outra batata, saboreia-a e depois chupa levemente o polegar. Pega num naco de carne, quentinho, prometendo ser saboroso. Uma culpa enorme invade-a e obriga-a a pousar o naco, ao pensar que ele não consegue dormir, no pequeno quarto que aluga, sem que a mãe chegue. Pelos seus beijos e pelos seus abraços. E pela caixa de margarina que lhe entrega, ainda a tempo de dizer, com a doçura do seu sotaque e escondendo as lágrimas, que está quentinha.

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