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Do que não é

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É um lugar despido de humanidade, como aqueles que enganam os sentidos, emanando calor falso, exalando promessas etéreas de remorso revestido a felicidade. É um lugar projectado das luzes coloridas (agora de frio díodo) e de enxames de frases vazias afixadas no que sobra do eu, do tu enquanto apêndice do eu, da perene necessidade de escapar ao oco da catedral que é o ego. Estímulo penetrante do olhar casual, insídia do cérebro absorto. Avenidas forradas a caleidoscópio, são interrompidas apenas por cantos sem sombras e praças onde plástico ecoa por sobre o desperdício pantagruélico. A liberdade vem embalada, prostituída, incessantemente renovada por chamamentos a uma natureza cruel que se rende ao primitivo, quando cuida ser sofisticada.

Há conversas, mas não diálogo; há intimidade, mas não amor; há troca, mas não partilha. O ser mecânico conduz a alma dormente, o corpo dolente, a vida impaciente. Azulejos pintados evocam a tipicidade do lugar. Máquinas castradas da sua função, como burro na nora do poço que secou, evocam labores esquecidos. Evoca-se o tempo do lugar com gente dentro em painéis que encobrem os cantos que não vingaram. A aventura de passar pelos demais, os que apelam aos momentos de distração indulgente, espelha-se em leões penteados, majestosos num écran 4K, em mulheres impossíveis, em homens intangíveis, em milagres embalados.

Por entre o glamour, há sombras mais ou menos discretas que recolhem o que sobra dos sonhos acordados. Limpam, arrumam e retiram da vista o que o lugar já não quer. São invisíveis ao lugar e a quem por lá passa. E ainda assim sonham em pertencer aos que passam, compram sujam, desperdiçam e desaparecem sem rasto.

Universo

Confinado ao universo

Crânio e flor

Ser ou não ser