Perante os olhos secos de ver o tempo em arco-íris de gasolina na estrada, espelha-se o mundo nos dias que escorrem vertiginosos de si. Das mesmas pernas, dos mesmos peitos. Das mesmas mãos arrojadas em prece ao altar do espelho gravítico, ao templo da solidão, aos recantos dos desejos repletos de vazio. Cegos pelo brilho tracejante da velocidade do pensamento maníaco, morre o diálogo sufocado por redes cósmicas por dentro e Ínfimas por fora.
Apenas a chuva e o vento mandam nos pequenos mundos de cada um, fazendo sofrer por dentro o que por fora seria natureza morta, distante e inerte, sem sentido nem sentimento. Cai água retalhada incessantemente em cada um, arrefecendo a vontade e aquecendo o incómodo de viver molhado. Em que se compara ser levado pelo vento, a ter os óculos embaciados pelo resfolegar da comiseração pedida a outros? A que se compara o frio de estar só, o vento que corta as costas a quem não conhece a quem se encostar, o desconforto de esperar apenas ecos?
Todos os sons são pardos. Todas as cores átonas. Todos os gritos saem em surdina, na estridência da sua mudez. E de todos estes mundos molhados e acrílicos, mãos suplicantes elevam-se, como sinalizadores de balsas salva vidas, reclamando uma salvação que não reconhecem e dizem não desejar.

