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Canal

Canal de São Roque, Aveiro

Sentado em frente ao canal verde pelo lodo remexido à passagem dos escassos barcos com escassos turistas, olhava alheado a passagem de folhas e limos e espumas e detritos. Uma ocasional máscara, ou luva de plástico, trazida pelo vento da estação de serviço sobranceira ao muro onde uma mulher com um vestido azul acompanha um menino que nos fita com uma lágrima. Tainhas refletem-se-lhe na face lampejando o seu dorso prateado ao passarem languidas e molhadas. Os reflexos dos transeuntes acompanham obedientemente os seus avatares numa realidade apenas por si imaginada.

Um certo qualquer coisa, depois do barco passar em quase silêncio, de tal modo que apenas a voz da água se ouvia, da ondulação contida por paredes de pedra e musgos, sobressai uma ave chapinhando.

– Salva-me! Que me afogo.  Tenho filhos no ninho que vão morrer à fome ou ser comidos por um gato se eu morrer aqui afogada.

Salva-me! Peço-te pelo Pai dos Bichos, salva-me.

Pousou a sandes de pasta de atum e levantou-se calmamente. Aproximou-se do canal e colocou um dos pés na água. Sentiu a sua firmeza; ainda se lembrava de como se fazia. Colocou o outro pé e, comprovada a necessária tensão de superfície, caminhou em direção ao pássaro. Este já quase não tinha forças para se debater, tão-pouco para agradecer o salvamento. Agachado junto à ave, com o seu indicador esquerdo, emprestado por Gabriel, pressionou a cabeça da andorinha para dento do canal até esta deixar de se debater.

Luzes de cidade

Encontraram-se

Folha dourada em fundo azul

Algo extraordinário me prende ao que sou hoje