(Ou, como o amor salva)
1
Ele reparou que faltavam as sétimas ondas. Tinha o hábito de, quando sentado a meio do areal da sua praia, entre o mar e o mundo, contar as ondas, dando especial atenção à sétima e última da série, habitualmente a mais forte e a mais galharda. Era sempre assim, desde que ficou só no mundo, numa idade que já não recordava e num dia que nunca esquecera. Deu-se gradualmente conta que o regular intervalo entre cada vaga era, pela altura em que a sétima onda deveria surgir, habitado por um momento de ausência em que o mar se mostrava duplamente calmo. Entre a sexta onda de uma qualquer sequência e a primeira da sequência seguinte, o mar ficava chão por mais tempo e o seu doce rugir, atenuado. A ausência intrigou-o, como o intrigavam e lhe doíam todas as ausências inexplicadas.
3
Ele quis um dia partilhar o seu segredo com um grupo de surfistas que se preparavam para entrar na água. Mas, ao ouvir um deles comentar para os demais que a sétima daria para uns 360, disse-lhes apenas bom dia e seguiu em frente. Nos dias seguintes, confirmou, ainda que indiretamente, que era o único a notar a falta das sétimas ondas. Optou, ou viu-se na contingência, de carregar esse conhecimento sozinho e tentar perceber porque tal acontecia. Ponderou ser tudo uma brincadeira de mau gosto do universo, mas logo percebeu que ninguém seria assim tão importante que levasse um universo a planear e a violar as suas próprias regras apenas para o enganar. Era-lhe difícil pensar que a física se vergaria a ponto de lhe trocar as voltas ou de o fazer sentir-se especial, de alguma forma aparte da vida. Pensou depois estar maluco, mas prontamente o descartou. Em nada mais a sua vida mudara. O seu entendimento do mundo, as suas relações pessoais, o seu monólogo interior… tudo se mantinha. Procurou então, com o conhecimento e os meios ao seu dispor, uma abordagem mais científica. Rapidamente percebeu que, por ser o único a fazer aquela observação, não disporia de grupo de controlo. Começou pelo mais simples, testar a influência da distância ao mar com a ocorrência do fenómeno. Experimentou distâncias sucessivamente maiores e concluiu que enquanto observasse o mar por observação direta dos seus olhos, mesmo com recurso a binóculos, o fenómeno seria observado, por muito longe que se encontrasse da orla marítima. Sem ideias e algo desmoralizado, afastou-se do litoral, tentando esquecer-se das desaparecidas sétimas ondas, nas montanhas do norte. Numa tarde, entediado e com saudades da praia e do mar, procurou na net, páginas com difusão ao vivo das praias mais apetecidas para o surf. Para seu espanto, observou que em todas as praias, a sua incluída, as sequências de ondas ocorriam completas. Meteu-se no carro e dirigiu-se à sua praia. Olhando o mar de frente, contava: uma, duas, três, quatro, cinco, seis… nada! Nada de sétima onda. Voltou então as costas ao mar, abriu a página da webcam da praia no seu telefone e todas as ondas estavam na sua sequência natural uma, duas, três, quatro, cinco, seis… sete! Estava seguramente maluco.
2
Ela tinha o condão de ser uma com os bichos. Sempre que visitava um jardim zoológico, coisa que não gostava por chamar muita atenção sobre si, algo de extraordinário acontecia: os animais, mudavam o seu comportamento, ficando muito calmos, como acólitos ladeando o altar. As borboletas, no terrário, poisavam nos galhos secos voltadas para o vidro donde ela apareceria, as que voavam livres, descreviam órbitas elípticas em seu redor para depois poisavam sobre os seus ombros e cabelos quase dourados. O louva-a-deus fazia uma pausa na busca incessante de alimento e, com uma das pinças sobre os olhos compostos, procurava-a entre a multidão. Babuínos e colobos cessavam as hostilidades verbais e perfilavam junto do limite da cerca mais próximo da alameda onde ela surgiria. Os leões levantavam a cabeça e lançavam o seu olhar enigmático sobre ela ao vê-la aproximar-se. Elefantes e girafas como que se vergavam em deferência a ela, que retribuía, acariciando-lhes a musculosa tromba e as alvas presas dos primeiros, ou a muito azul língua das segundas.
4
Ela era alvo constante das atenções. Não apenas dos animais, mas também das pessoas, em igual medida maravilhadas, perplexas e invejosas por algo que viam em diferentes momentos, como um talento, um milagre, uma ameaça ou um dom. Não porque lhe afligia a sua capacidade, mas antes pela atenção que suscitava. Preferiria que os animais fossem dissimuladas como as pessoas e escondessem o seu comportamento cúmplice quando ela estava acompanhada por outros seres humanos. Teria sido melhor, não tanto para ela, mas para todos eles, se os bichos se revelassem apenas quando deambulava só pela floresta, que tanto gostava, ou aquando daquela vez, ainda menina, se perdeu num trilho de montanha. Pois que, mal se soube que era uma com os bichos, quiseram estudar e analisar o fenómeno. Na impossibilidade de lhe dissecarem o cérebro, dissecavam os dos bichos. Incontáveis cobras e lagartos, cães, periquitos e águias, douradas e lúcios e até pandas e orcas foram alvo de atrocidades em nome do conhecimento. A ela, escrutinaram-lhe a química do corpo, as feromonas, a atividade elétrica, a aura eletromagnética! Nada. Nem uma pista de como comandar hordas de formigas determinadas, exércitos de pombos obstinados e cardumes de tubarões furtivos. Ela chorou cada tortura, cada morte como se de um familiar se tratasse, ao ponto de se retirar do mundo. Antes dessa decisão drástica, ainda tentou o disfarce. Usava, sem lavar, roupas de outras pessoas, envergava chapéus de aba larga e óculos de sol enormes. Chegou mesmo a usar máscaras, luvas e a encharcar-se de perfumes. De nada adiantava. Logo um pássaro se encantava e poisava no seu ombro; um rato, aventura-se, expondo-se no passeio, para seguir no seu encalço; um cão corria para ela com a língua de fora e o rabo a abanar efusivamente; um esquivo casal de pegas trazia-lhe coisas brilhantes e, certo dia, enquanto almoçava numa esplanada, rolas do mar trouxeram-lhe conchas, búzios e beijinhos à mesa. Vendo-se sem alternativa, tornou-se reclusa, não dos bichos, mas das pessoas. Nas primeiras semanas da sua auto-imposta reclusão, chegou a sentiu-se livre, no universo da sua casa junto ao mar, mas logo as paredes lhe cresciam nos olhos e os móveis lhe cortavam a respiração. Mesmo por trás do vidro duplo, três gaivotas e uma raposa que ninguém sabia existir, apareciam para a ver e com ela se enternecerem com o entardecer. Não aguentaria muito mais tempo sem sair à praia.
5
Certo dia, quando ele estava prestes a deixar a sua sanidade levar-se pela ausência das sétimas ondas e ela, tendo deixado de ser novidade para o mundo, quase já nem via os animais que permanentemente a rodeavam, os seus olhares cruzaram-se na praia que ambos e em diferentes tempos aprenderam a chamar sua. E ele sentiu o frio nos pés de uma impetuosa sétima onda que por fim o atingiu e o acordou para ela. E ela sentiu um ligeiro roçar de asa na sua face, a jeito de despedida, no momento em que um bando de gaivotas, até aí devoto dos seus passeios, debandou, finalmente indiferente, deixando-lhe o horizonte livre para ele. E cuidaram não haver mais nada no mundo senão o olhar de cada um, o dele temeroso e decidido como um gato que arqueia, o dela doce e meigo como a mão que limpa uma lágrima. E trocaram os nomes. E deram as mãos. E nunca mais as separaram.