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19. O lago

villain / vilão
A estrada era agora um grande lago azul e sereno. A berma era agora um relvado que de tão bem tratado se via muito verde e uniforme e envolvia o lago com largueza e frescura. Por sua vez, esta era orlada intermitentemente por bancos de jardim, candeeiros esguios de duas lâmpadas e pequenas edificações em pedra, sem função aparente que não fosse a de propiciar, às gentes e aos bichos, poiso para contemplação do lago. Os patos, as gaivotas, as narcejas, os gansos e os cisnes, os pardais e os piscos nas árvores, ora pastavam, ora nadavam, ora voavam em círculos, ora saltavam voando de árvore em árvore, ora dormitavam pousadas na relva, assentes num ou dois pés. O sol era agora tudo e a tudo e a todos afogava com a sua luz.
Ele, deitado num banco, braço por cima da cara bloqueando a luz do sol, uma das pernas esticada no banco, a outra, pendente, dormia sentindo-se acordado. Sem que se apercebesse quando ou há quanto tempo, sentiu o peso de um cisne que pousara sobre o seu peito. Levantando um pouco o braço, o suficiente para deixar passar uma nesga de luz, viu com dificuldade um cisne branco, alvo, mas maculado, como todos os cisnes, com patas muito negras e bico vermelho muito vermelho, contornado a negro e fauce negra, muito negra que se abria para lhe perguntar, em tom ameaçador,  porque deixara o jardim. Quase lhe perguntou que era o cisne, ou que se achava, para se lhe dirigir em tal tom, mas o silvo do bicho, o enfunar de penas que lhe engrossavam o pescoço e o desfavor em que se encontrava, fê-lo pensar antes de falar, e perguntar: Quem és tu?
Se te disser que sou um cisne, por certo duvidarias, ou repudiarias mesmo semelhante afirmação, com o fácil e óbvio argumento de que os cisnes não falam. Por outro lado, se te disser que sou um homem, pois falo com coerência e abstração, ser-te-á igualmente difícil aceitar e fácil contrapor, pois ainda que te dirija a palavra como um, apresento-me em corpo de bicho. Tens portanto, à tua frente, uma incongruência produzida pelos sentidos: vês um cisne, ouves um homem. Terás então de te afastar dos sentidos que te inundam e do mau conselho que te dão, e usar a razão, único instrumento fiável no que toca a entender o mundo que te rodeia. Ao usares da sabedoria, responderás à tua questão.
Ao ouvir a resposta do cisne, perguntou: Porque diabo te transformou Apolo num cisne?
Perguntas em tom depreciativo. E sabes já quem sou. Pergunto-te ainda antes de te responder, ou como deixa para a resposta que espero que construas, se não é justo achar a minha condição ímpar entre a natureza dos bichos e dos homens? Anuis certamente. Não será também classificá-la de ímpar dizer pouco, pois que igual metamorfose apenas a deuses foi atribuída? Seguramente o é. Se é então esta metamorfose do reino do divino, e sendo ela atribuída a mim que fui homem, não será isso um milagre e uma graça de grande monta? Concordarás. E, por fim, se me encontrava a alma sujeita a um corpo de homem, como a tantos milhões de homens antes e depois de mim e agora me encorpa a alma este corpo de cisne, livre para vogar como Ícaro mas sem receio de ver minhas asas queimar por não ter ambição desmedida ou anatomia incompatível, se sou , repito, agora alma de homem em corpo de cisne, não será esse enxerto digno da maior exclamação e do mais expressivo louvor?
O cisne saltou para o chão deixando-o levantar-se. Dirigiram-se os dois ao lago. O cisne, desajeitado, deslocava-se lentamente, abanando a cauda a cada passo que dava. Ele seguia ao seu lado, olhando em frente, para o lago e refreando as passadas para não deixar o cisne para trás. Perguntou-lhe novamente porque deixara o jardim. Ele pensou um pouco e depois mostrou-se indeciso, pois não sabia se tinha à sua frente um cisne com alma de homem ou um homem com corpo de cisne. Essa dúvida, ainda que irrelevante para um ser senciente, pois que do ponto de vista de um tal ser, não se apresentavam, cisne e homem, diferentes, era, para o irracional na sua humanidade, uma barreira intransponível, algo que não conseguia vencer. Ouvia um homem que não era um homem, via um cisne que não era um cisne. Talvez ainda lhe devesse respeito, mas seria circunstancial; talvez ainda lhe devesse admiração, mas seria própria da devida a uma atração de feira. A sua humanidade impedia-o de compreender e respeitar aquele ser na sua unicidade e singularidade.
Compreendo o que dizes e como te apoquenta, disse. E subindo para uma dessas edificações de pedra que alguém colocou sem outro propósito que não o de propiciar a contemplação do lago, pôs-se a contemplar o lago e continuou: Temo que a tua inteligência seja escassa ou então que não dês à tua alma o mesmo cuidado que atribuis ao corpo. Pois que, ainda que não fosses a extremos como os encontrados pelos verdadeiros amantes da sabedoria, para quem toda e qualquer consideração mundana como comer, vestir, ter onde dormir ou lavar-se é supérfula, e atribuísses tanta importância às coisas da mente como às coisas do corpo, verias não um homem em corpo de cisne ou um cisne com alma de homem, mas sim um ser que como tu trilha um caminho em busca de algo maior que o eleve da prisão que é a matéria e da ilusão de vida livre que ela comporta. Estavas no jardim, eras absoluto. Porque saíste?
Porque, Sócrates, lá como cá, estava condenado a ser livre.
Cesto com vários tipos de pão

14. O padeiro

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