(?)
- (…) Desculpa, que queres de mim?
- Apenas que me ames. Será pedir muito?
- Sabes bem que não posso. Não sabes?
- Deveria saber? Que me disseram os teus olhares cúmplices em reuniões enfadonhas, os teus beijos marcados a fogo e sal na minha face quando, de manhã, chegavas com ligeiro atraso, os teus abraços tímidos, a tua mão no meu ombro enquanto trabalhava, senão que me amas?
- Não vês que somos amigos? Que desde logo, do primeiro dia, a nossa relação foi de amizade?
- Amizade? Apenas amizade? Okay, e porque não construir o amor em cima dessa rocha?
- Crês que é assim?
- Sim creio. Se te amo, se construí o meu amor por ti a partir desta amizade que é nossa e se é um amor tão carente do teu, porque só assim se completa, porque não constróis tu, meu amor, a parte que nos falta? És incapaz de amar?
- Não. Sou apenas incapaz de te amar. Porque não aceitas o que te digo?
- Aceitar não te amar. Aceitarias não respirar? Aceitarias não correr para a luz do túnel frio que é a vida sem o teu amor? Porque não me amas?
- Porque não te amo? Haverá alguma resposta que te possa dar que não me deixe triste a mim e a ti em sofrimento?
- Há. Diz-me que me amas. Apenas a mim. Que queres passar a tua vida comigo. Que juntos seremos um. Que seremos felizes e cúmplices. Que a tua vida será a minha vida e que a minha vida será a tua vida. Dizes?
- Como poderei dizer algo assim? Como poderei atraiçoar quem amo e o amor que me tem?
- Não te move ser tudo por ti?
- Como assim?
- Tudo. Tudo. Acordo na ânsia de te ver, de trocar dois beijos na face contigo, de encostar o meu ombro ao teu enquanto fumamos encostados ao muro. Saio vezes demais do cubículo para passar em frente ao teu e beber do teu sorriso. Despeço-me de ti com medo de não te ver no dia seguinte e adormeço no conforto de sonhar contigo. Nada mais há na minha vida para lá de ti, percebes?
- Que fiz eu para me amares desta forma? Que esperança, que alento te dei?
- Não sabes?
- Não. Não sei. Porquê?
- Porque… existes?
- …
(!)
- Diz qualquer coisa!
- Não. Não quero o teu amor. Recuso-o!
- Não podes! É já teu, pá!
- Sai!
- Não saio nada!
- Então saio eu. Deixa-me em paz!
- Volta!
- Não. Endoideceste!
- Amo-te!
- Cala-te! Cala-te já!
- Por favor, volta!
- Deixa-me, já disse!
- Não te vou largar, nunca!
- É de doidos!
- Não! É amor!
- É maluquice. Despeço-me. Despeço-me já!
- …
(.)
- Deixa. Saio eu.
- Desculpa ter gritado contigo.
- Talvez seja melhor assim, eu sair.
- Vais encontrar que te faça feliz.
- Já encontrei, és tu.
- Alguém que ames, te respeite e que possa retribuir o teu amor.
- O teu rosto meigo.
- Uma pessoa vai surgir que te vai encantar, vais ver.
- A tua voz cândida.
- Esqueces-me em dois tempos.
- A tua maneira sem maldade de olhar o mundo.
- Vais ver. Só tens de ter paciência.
- A forma doce como me cumprimentas pela manhã.
- É, quando menos esperas, lá está essa pessoa, escondida diante dos teus olhos. Tu vais ver.
- O peso do teu ombro enquanto fumamos encostados ao muro. O olhar cúmplice ao passar pelo teu cubículo. A leveza que dás às reuniões enfadonhas. (…)
(continua na primeira linha do primeiro diálogo)

